Oslo acaba de anunciar que pretende barrar o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, e a imprensa mundial recebeu a notícia com aquele suspiro de alívio típico de quem confunde ação estatal com solução. A primeira-ministra fala em proteger crianças da manipulação algorítmica das big techs, como se a manipulação algorítmica do próprio Estado, que há décadas molda currículos escolares, campanhas de saúde pública e narrativas oficiais, fosse de natureza distinta. O fato concreto é este: o país que mais se orgulha de seu igualitarismo nórdico resolveu tratar adolescentes de quinze anos como incapazes civis, enquanto mantém para os mesmos jovens o direito de consentir sexualmente a partir dos dezesseis, de trabalhar, de responder criminalmente. A incoerência não é acidente de percurso; é a assinatura do intervencionismo contemporâneo.
Olha, a lógica aqui merece dissecação lenta. Se um jovem de quinze anos é maduro o bastante para ter relações sexuais consentidas sob a lei norueguesa, mas imaturo demais para abrir um aplicativo de vídeos curtos, então ou a maturidade humana funciona por compartimentos estanques que desafiam a biologia, ou estamos diante de uma escolha política travestida de preocupação científica. A resposta honesta é a segunda. Governos não proíbem redes sociais porque descobriram a fórmula do desenvolvimento cognitivo juvenil; proíbem porque é mais barato legislar contra a consequência do que enfrentar a causa, que é a falência da família, da escola e da formação moral, áreas onde o próprio Estado sueco-norueguês vem atuando ativamente há meio século para substituir a autoridade dos pais pela sua.
E aqui é onde a trilha do dinheiro e do poder se torna interessante. Quem ganha com a proibição? Não é o adolescente, que encontrará o proxy ou o VPN em quarenta e oito horas, como qualquer pai minimamente observador sabe. Não é a família, que perde mais uma fatia de autoridade sobre a educação dos próprios filhos, porque a decisão do que o jovem consome foi terceirizada ao parlamento. Quem ganha é a burocracia estatal, que adquire mais um território de fiscalização, mais um orçamento de verificação etária, mais contratos com empresas de identidade digital, mais justificativa para exigir documento de identificação em tudo que se faz on-line. A proteção da criança é o cavalo de Troia; dentro dele, vem a infraestrutura de vigilância universal que depois será usada contra o adulto.
Quer dizer, o paradoxo escandinavo é quase poético. A mesma sociedade que passou trinta anos dizendo aos pais que eles não deveriam impor valores aos filhos, que crianças têm autonomia, que a escola progressista ensinaria a pensar criticamente, descobre agora que esses mesmos jovens, criados sem bússola moral, estão emocionalmente devastados por aplicativos desenhados para capturar atenção. E a solução proposta não é reconstruir a autoridade familiar, não é reintroduzir formação clássica, não é sequer ensinar autocontrole, virtude que aliás foi expulsa dos currículos como reacionária. A solução é proibir. Sempre proibir. Porque é o que o martelo sabe fazer, e para o martelo estatal todo problema cultural tem cara de prego legislativo.
Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta onde estavam esses governos quando as redes sociais foram desenhadas para viciar, quando os algoritmos foram treinados para explorar dopamina, quando as escolas distribuíram tablets em massa sem qualquer cautela pedagógica? Estavam aplaudindo, subsidiando, recebendo a modernidade digital como bênção do progresso. Agora que o estrago está consumado, fazem cara de estadistas preocupados e oferecem a proibição como se fosse invenção deles. É o bombeiro piromaníaco, que ateia o fogo à noite e aparece de manhã cobrando pelo resgate. E o cidadão, grato por não ter morrido queimado, não pergunta quem tinha o fósforo.
O mais sinistro, contudo, não é a medida em si, que cairá no esquecimento assim que outra crise midiática desviar a atenção. O mais sinistro é o princípio que se consolida silenciosamente: o de que cabe ao Estado, e não à família, decidir a que informação, conteúdo ou experiência um jovem pode ter acesso. Ontem foram os cigarros, hoje são os aplicativos, amanhã serão os livros considerados inadequados, depois serão as opiniões, e quando o cidadão perceber o que aconteceu, estará morando numa sociedade onde a única liberdade garantida é a de concordar com o que já foi pré-aprovado pela autoridade competente. A Noruega não está protegendo suas crianças. Está ensinando que a proteção tem dono, e o dono não é o pai.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.