Cem anos depois de nascer e mais de sessenta depois de morrer numa cama em Brentwood, Marilyn Monroe continua faturando US$ 80 milhões por ano. Não é figura de retórica, é o número que a Authentic Brands Group, dona dos direitos sobre o espólio, declara orgulhosamente como receita anual. Quer dizer, a moça já não respira, não atua, não pisa em set, não dá entrevista, não faz absolutamente nada, e ainda assim gera uma fortuna que noventa e nove por cento da humanidade viva não conseguiria produzir trabalhando três vidas seguidas. E isso, longe de ser escândalo, é a coisa mais bonita que o capitalismo já inventou.
Olha, pensa bem no que está acontecendo aqui. Uma mulher construiu, em vida, uma imagem tão poderosa, um capital simbólico tão denso, que o valor agregado àquele rosto, àquele andar, àquele suspiro, sobreviveu ao próprio corpo que o gerou. Marilyn transformou a si mesma em propriedade transmissível. Bateu o pé contra a maquinaria dos estúdios, montou a própria produtora em 1955 quando isso era heresia, e ao morrer deixou para herdeiros e licenciantes não uma casa, não um cofre, mas um ativo intangível que se valoriza com o tempo como bom vinho em adega refrigerada. Isso se chama propriedade, e propriedade é o instituto mais civilizatório que a espécie humana já produziu.
Agora, me diz uma coisa, por que é que o sujeito comum acha imoral que herdeiros recebam royalties de Marilyn Monroe mas acha natural que o Estado fique com quarenta e cinco por cento do salário dele para pagar precatório de juiz aposentado aos cinquenta anos? Existe uma inversão moral grotesca operando aqui. O contrato voluntário entre a Authentic Brands e quem quer estampar a cara da Marilyn numa caneca é tratado como exploração capitalista, enquanto a apropriação compulsória do fruto do trabalho alheio, feita sob ameaça de prisão, é chamada de pacto social. A primeira é livre, mutuamente benéfica e gera oitenta milhões; a segunda é coercitiva, parasitária e gera Brasília.
E tem mais. A marca Marilyn vale o que vale porque há um sistema jurídico que protege a propriedade intelectual por décadas após a morte do criador. Tente fazer o mesmo num regime onde tudo pertence ao coletivo, onde a propriedade é concessão revogável do soberano, e veja quantas Marilyns sobreviveriam ao próprio enterro. Nenhuma. Não por acaso, as grandes marcas que atravessam gerações, Disney, Coca-Cola, Chanel, Elvis, Marilyn, nasceram todas em ambientes onde o direito de propriedade é coisa séria, e não folclore constitucional reinterpretado a cada governo.
O que se vê é uma loira eterna faturando milhões. O que não se vê é a cadeia inteira de fotógrafos, designers, estilistas, fabricantes, varejistas, distribuidores, transportadoras e consumidores satisfeitos que vivem, comem e pagam aluguel graças àquele espólio. Cada dólar que entra na Authentic Brands se transforma em folha de pagamento, em contratos, em encomendas, em vidas inteiras que dependem economicamente do fato de uma menina chamada Norma Jeane ter resolvido, em 1946, mudar de nome e tentar a sorte em Hollywood. Destruir isso em nome de uma suposta justiça redistributiva seria matar o ganso de ovos de ouro para servir caldo aguado num refeitório estatal.
Marilyn morreu cedo, sozinha, possivelmente envenenada pelos próprios demônios e pelos demônios que outros plantaram nela. Mas o que ela construiu sobreviveu, e sobreviverá enquanto houver gente disposta a comprar e gente disposta a vender sem precisar pedir licença ao comissário. A morte levou a mulher; o mercado preservou o que ela criou. Não há epitáfio mais libertário do que esse cheque de oitenta milhões chegando todo ano, pontual, no nome de uma defunta que provou, sem querer, que a propriedade privada é a única forma de imortalidade que funciona.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.