A notícia veio embrulhada em papel de presente, daqueles brilhantes que a gente sabe esconder porcaria barata: a Investing.com anuncia, com a pompa de quem descobriu a pólvora, a nova lista mensal de ações selecionadas por inteligência artificial para maio. O leitor distraído lê, salva o link, talvez compartilhe no grupo da família. O leitor atento percebe o truque antigo travestido de novidade tecnológica. Porque, olha, vender lista de ações vencedoras é o segundo ofício mais antigo do mundo, e o primeiro também envolve relação rapidamente desfeita após o pagamento.
O encanto da palavra "IA" funciona como funcionava a palavra "quântico" nos anos noventa, "neural" nos anos dois mil e "blockchain" na década passada. Muda a embalagem, o conteúdo continua o mesmo: alguém vendendo a ilusão de que existe um atalho cognitivo capaz de antecipar o comportamento de milhões de agentes econômicos espalhados pelo planeta, com objetivos divergentes, informações fragmentadas e humores oscilantes. Quer dizer, o algoritmo treinado em dados do passado vai prever um futuro que, por definição, ninguém viveu ainda. Curioso negócio. Se funcionasse de verdade, a plataforma não estaria vendendo lista por assinatura, estaria comprando ela mesma e calada.
Me diz uma coisa: por que essas listas sempre aparecem com o mês começando, nunca com o mês terminado? Resposta simples. No início do mês, a expectativa é commodity vendável; no fim do mês, o resultado é constrangimento auditável. O modelo de negócio depende dessa assimetria. Acerta meia dúzia, divulga em letra garrafal nos próximos disclaimers de marketing. Erra a outra meia dúzia, joga no rodapé com letra de bula de remédio, blindado por aquele clássico aviso de que rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, frase que deveria estar tatuada na testa de todo guru financeiro do Instagram.
Aqui mora o ponto que ninguém quer ver. O mercado financeiro funciona porque é descentralizado, porque agrega em tempo real o conhecimento disperso de milhões de cabeças, porque traduz em preço aquilo que nenhum comitê, nenhum guru e nenhum servidor da Amazon Web Services consegue calcular. Quando a IA "recomenda" uma ação, ela está apenas fazendo regressão estatística em padrões pretéritos, exatamente o que qualquer estagiário de banco fazia em planilha de Excel há vinte anos, só que agora com narrativa de Vale do Silício e mensalidade em dólar. O que se vê é a ferramenta sofisticada. O que não se vê é a transferência silenciosa de patrimônio de quem confia para quem cobra pela confiança.
Há ainda um detalhe que merece o seu cinismo. Esse tipo de produto floresce justamente em ambientes de juros confusos, inflação suspeita e governo gastando como marinheiro em escala. Quando a moeda apodrece nas mãos de quem trabalha, o sujeito sai desesperado em busca de qualquer promessa que devolva poder de compra. A indústria do "investimento inteligente" é parasita oportunista dessa angústia fabricada por bancos centrais que imprimem dinheiro como se fosse panfleto de farmácia. A causa do desespero gera a demanda pela falsa cura. Belo arranjo, alguém ganha dos dois lados.
O conselho honesto, aquele que não vende assinatura, é tedioso e por isso ninguém quer ouvir. Diversifique, estude o que compra, desconfie de quem promete método, leia balanço, entenda o negócio, pense em décadas e não em meses, e proteja-se daquele inimigo silencioso que carcome poupança enquanto você dorme, que é o Estado pegando emprestado contra o futuro dos seus filhos. Nenhuma lista mensal vai te salvar disso. Nenhum algoritmo treinado em série temporal vai compensar a incompetência fiscal de Brasília. A liberdade financeira não cabe em ranking, cabe em disciplina, e disciplina, infelizmente para os vendedores de atalho, ainda não foi automatizada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.