A Nova Minerals concluiu sua redomiciliação para os Estados Unidos, deixando para trás a estrutura societária australiana que a abrigou até agora. O movimento foi vendido em comunicado oficial com a linguagem asséptica de sempre, governança, acesso a capital, alinhamento estratégico, aquela ladainha que advogado societário decora na primeira semana de estágio. Mas quem entende como o mundo funciona sabe ler nas entrelinhas. Empresa de mineração não troca de país do jeito que você troca de operadora de celular. Quando o domicílio fiscal muda, é porque a conta de ficar parou de fechar.
O projeto carro-chefe da companhia, o Estelle, fica no Alasca. Ou seja, a operação real, os ativos, o ouro debaixo da terra, tudo sempre esteve em solo americano. O que mudou foi a casca jurídica. E aqui está a confissão silenciosa que ninguém faz em entrevista, manter sede em Sydney enquanto se opera no Alasca virou caro demais, burocrático demais, sufocante demais. O ambiente regulatório australiano para mineração nos últimos anos virou pista de obstáculos, com royalties crescentes, exigências ambientais que mudam a cada eleição estadual e um humor político que oscila entre o hostil e o cínico. O capital olhou para o relógio e foi embora.
E observe o detalhe que ninguém comenta. A empresa não foi para um paraíso fiscal de Caribe nem para uma jurisdição exótica de bandeira branca. Foi para os Estados Unidos, que ninguém em sã consciência classifica como paraíso tributário. Quando a empresa prefere a Receita americana à australiana, não é porque a americana cobra menos. É porque a americana, com todos os defeitos que tem, ainda oferece previsibilidade jurídica, um mercado de capitais profundo, e uma cultura política que pelo menos finge respeitar quem produz riqueza. A Austrália andou esquecendo desse último ponto.
O resumo da ópera é simples. Cada vez que um governo aperta a regulação, eleva tributo, inventa nova exigência ambiental performática, alguém em algum conselho de administração começa a fazer planilha. E planilha não tem ideologia, planilha tem resultado. O político faz discurso sobre soberania nacional, sobre proteger os recursos do povo, sobre garantir que as riquezas do subsolo beneficiem os cidadãos, e três anos depois a empresa carimba o passaporte e o emprego vai junto. O povo, que era para ser beneficiado, fica com o buraco no chão e sem o royalty, sem o salário, sem o fornecedor local. O político, esse, já está em outro cargo dando outra entrevista.
Aqui no Brasil deveríamos estar prestando atenção, mas estamos ocupados demais discutindo a próxima taxação de dividendo, a próxima reforma que vai simplificar tudo complicando mais, o próximo programa que vai redistribuir o que ainda não foi produzido. Quem investe capital em ativo de longuíssimo prazo, e mineração é o exemplo paradigmático disso, precisa de horizonte de duas, três décadas de regra estável. O empresário brasileiro acorda sem saber qual alíquota vai pagar no semestre que vem, e a gente ainda se pergunta por que o capital sobe no avião. A resposta está escrita em letras garrafais no balanço da Nova Minerals.
Capital é covarde, dizia o velho ditado da City de Londres, e covarde com toda razão. Ele foge do barulho, da imprevisibilidade, do tribuno inflamado que quer reescrever o contrato social no meio do contrato comercial. E quando ele foge, leva junto o emprego, o imposto, o fornecedor, a tecnologia e a esperança de desenvolvimento. Fica o discurso. Discurso não paga conta de luz.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.