Antes de falar em "nova rodada de negociações em dias", convém lembrar o que acabou de acontecer: dois países que estão tecnicamente em guerra se sentaram em Islamabad, ficaram vinte e uma horas na mesma sala, e saíram cada um apontando o dedo para o outro. O vice-presidente americano disse que o Irã recusou abandonar seu programa nuclear. Teerã respondeu que foram os "excessos e as ambições" de Washington que impediram qualquer entendimento. O Paquistão, generoso mediador, anunciou que tentará viabilizar uma nova rodada. E o prazo do cessar-fogo, que ninguém na imprensa brasileira parece ter anotado no calendário, expira no dia 22 de abril. Dez dias. Esse é o relógio real da história.
O ponto central de toda a disputa não é ideológico nem diplomático. É o Estreito de Ormuz, uma faixa d'água de trinta e poucos quilômetros de largura por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Quem controla Ormuz controla o preço da energia global. Quem controla o preço da energia controla a indústria, o transporte, a comida, o custo de vida de bilhões de pessoas que jamais ouviram falar de Islamabad. O Irã sabe disso. Mantém Ormuz fechado ou ameaçado desde o início do conflito, e não vai entregar essa vantagem estratégica por palavras bonitas num comunicado conjunto. Nenhum Estado no mundo jogaria fora sua principal alavanca de pressão antes de ter o que quer em troca. Qualquer pessoa com acesso a um mapa entende isso. Diplomatas fingem não entender porque é o jogo deles.
A questão nuclear é mais simples do que a mídia faz parecer, e mais intratável. Os americanos exigem fim total do enriquecimento de urânio, desmonte das principais instalações e entrega do material já enriquecido. O Irã recusa. Não é teimosia ideológica, é memória histórica. Todo líder que aceitou desmantelar seu programa de armas por pressão ocidental nos últimos trinta anos terminou mal, e os iranianos têm uma lista de exemplos memorizada. A questão não é se o Irã quer a bomba. A questão é que, do ponto de vista de Teerã, um programa nuclear é o único seguro de vida que um Estado não ocidental consegue comprar no mercado internacional de hoje. Isso não torna o Irã simpático. Torna o impasse compreensível.
Agora o mais revelador: ao mesmo tempo em que o chanceler paquistanês anunciava, com toda solenidade, que trabalharia para uma nova rodada de diálogo nos próximos dias, Trump anunciou que a Marinha americana iniciaria um bloqueio naval do Estreito de Ormuz às dez da manhã da segunda-feira, aplicado a embarcações com destino ou origem no Irã. O país que durante décadas se apresentou ao mundo como o grande defensor do comércio livre e dos mares abertos agora anuncia bloqueio de uma das rotas marítimas mais críticas do planeta. Alguém deveria perguntar quem paga essa conta. A resposta está nos mercados de petróleo, que já começaram a se mexer antes mesmo do início do bloqueio.
Siga o dinheiro. Volatilidade no preço do petróleo não é neutra. Cada vez que o barril dispara por instabilidade geopolítica, alguém do outro lado dessa transação embolsa a diferença. Produtores que ficaram de fora do conflito ganham market share. Especuladores que apostaram na alta realizam lucros. Contratores de defesa de ambos os lados faturam com a continuidade da tensão, não com a resolução dela. A paz é cara para quem vive da guerra, e o conflito EUA-Irã tem um ecossistema inteiro de beneficiários que nenhum jornalista econômico mainstream vai mapear porque os anunciantes de seus portais estão nesse ecossistema. Enquanto isso, o motorista de aplicativo em São Paulo, que enche o tanque a cada dois dias, já sente no bolso o que os diplomatas não conseguiram resolver em vinte e uma horas.
A promessa de "nova rodada em dias" é o tipo de manchete que serve para acalmar mercados por quarenta e oito horas, não para resolver um impasse estrutural que dura décadas. Entre o otimismo do chanceler paquistanês e o bloqueio naval que começa segunda de manhã, há uma distância que nenhuma boa vontade diplomática atravessa em dez dias. O cessar-fogo expira em 22 de abril. Se não houver acordo antes disso, o mundo não vai esperar a próxima rodada de comunicados bem-intencionados. E o cidadão comum, aquele que não tem assento em nenhuma mesa de negociação, vai continuar pagando a conta que os Estados jamais pagam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz. ```