A notícia parece pequena, quase técnica, e por isso mesmo é devastadora. Nova York, o estado onde a United Federation of Teachers manda mais que prefeito eleito, onde escola pública vira cabide ideológico há meio século, acaba de aderir ao programa federal de school choice da Casa Branca. Em tradução direta: o dinheiro que antes ia obrigatoriamente para a escola da esquina, com seus resultados pífios e seu currículo militante, agora pode ser sacado pela família e levado para onde a família achar que vale a pena. É a primeira rachadura visível no muro que sustentava o monopólio educacional americano há gerações.
Olha, ninguém faz favor a ninguém aqui. Nova York não acordou liberal de manhã. O que aconteceu foi mais prosaico e mais bonito: a fila de espera para escolas charter atingiu números que nenhum governador consegue mais empurrar para debaixo do tapete, e a evasão de famílias para a Flórida virou êxodo bíblico. Quando o pai de família pega o caminhão e muda o CEP inteiro só para fugir da escola pública local, o cálculo político vira pó. Funcionário sindicalizado não paga aluguel de Manhattan, mas contribuinte que financia o circo, sim. E contribuinte cansado vota com o pé.
Vale seguir o dinheiro, que é onde mora a indignação justa. Cada aluno na rede pública de Nova York custa em torno de trinta e seis mil dólares por ano, número que faria corar uma escola particular suíça, e produz resultados de leitura abaixo da média nacional. Para onde vai esse dinheiro? Salários inflados de burocracia administrativa, pensões generosas para quem se aposentou aos cinquenta e dois, programas de "equidade" que são oficinas de doutrinação travestidas de pedagogia, e consultoria contratada de amigos do amigo do secretário. A escola, coitada, fica com o resto. O programa de choice ameaça exatamente esse arranjo, e por isso o lobby das centrais sindicais já está rangendo os dentes em Albany.
Existe uma falácia repetida há décadas que precisa ir para o lixo: a de que escola pública universal é conquista civilizatória, e que tocá-la é privatizar a infância. Mentira deslavada. O que existe não é educação pública, é educação estatal, coisa muito diferente. Pública seria aquela aberta, plural, prestando contas à comunidade. Estatal é a que fecha o circuito num único fornecedor monopolista, captura o currículo, expulsa quem discorda e cobra a conta de todo mundo via imposto, inclusive de quem nunca pôs o filho lá. Choice não destrói educação pública, ela finalmente cria educação pública de verdade, plural, onde a família escolhe e o dinheiro segue a escolha.
O efeito interessante, e que poucos colunistas brasileiros vão notar, é o cultural. Quando o pai pode escolher entre uma escola religiosa, uma clássica, uma técnica, uma Montessori e a tradicional do bairro, o currículo deixa de ser imposto por um comitê em Washington ou Albany e volta a refletir o que aquela comunidade efetivamente acredita. A diversidade real, não a de cartilha, floresce. E é exatamente isso que apavora quem construiu carreira moldando crianças por atacado: perder o atacado. O varejo é incontrolável, porque o varejo é a liberdade.
O Brasil olha tudo isso com aquela inveja muda dos países que ainda não acordaram. Aqui, propor vouchers educacionais ainda faz colunista de jornal grande chamar você de neoliberal, palavra que eles usam sem saber definir, como criança xinga. Enquanto isso, a fila de espera por escola decente em qualquer capital brasileira escancara que o monopólio também aqui já está moralmente falido, só falta a coragem política de admitir. Nova York mostrou que dá. O resto é questão de tempo, e de quantos contribuintes vão precisar fazer as malas antes que os nossos políticos percebam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.