O Google Now morreu em 2017 e ninguém chorou. Era útil, sim, um assistente que mostrava a previsão do tempo, o trânsito até o trabalho, o placar do jogo, tudo antes que você pedisse. Funcionava bem. Talvez bem demais para uma empresa que ainda não tinha encontrado a fórmula exata de monetizar cada centímetro da sua rotina. Agora, quase uma década depois, o Gemini promete ressuscitar essa mesma ideia, só que turbinada com inteligência artificial generativa, integração profunda com Gmail, Agenda, Maps e tudo mais que o Google já sabe sobre você. A pergunta que nenhum site de tecnologia faz é a mais óbvia de todas: por que exatamente o Google quer tanto antecipar o seu dia?

A resposta está onde sempre esteve, no modelo de negócios. O Google não vende software, não vende hardware de verdade, não vende assinaturas que sustentam a empresa. O Google vende você. Vende a previsibilidade do seu comportamento, a sua rotina empacotada em dados estruturados, o seu perfil psicográfico refinado a cada busca, a cada e-mail lido por algoritmo, a cada trajeto registrado pelo Maps. Quando uma empresa dessas diz que vai "antecipar o seu dia", o que ela está dizendo, em linguagem honesta, é que pretende modelar sua vida com precisão suficiente para vender essa modelagem a anunciantes. A conveniência que você recebe é o subproduto. O produto é você.

Há algo de tragicômico nessa reciclagem perpétua. O Google Now virou Google Assistant, que virou uma espécie de zumbi digital que ninguém usava direito, que agora vira Gemini com superpoderes. Cada iteração promete ser a definitiva, a que finalmente vai "entender você de verdade". É o mesmo discurso que vendedores de elixir milagroso faziam em feiras medievais, só que com orçamento de bilhões de dólares e uma base de dois bilhões de usuários Android que não têm escolha real. Porque essa é a parte que os entusiastas de plantão convenientemente ignoram: no ecossistema Android, recusar o Google é como recusar o ar. Você até pode tentar, mas vai sufocar em três minutos.

O que deveria causar calafrios não é a tecnologia em si. Antecipar informações úteis é, em tese, uma boa ideia. O problema é quem está fazendo. Estamos falando de uma corporação que foi condenada por rastrear localização de usuários mesmo depois que eles desativavam o rastreamento. Que leu e-mails de milhões de pessoas para treinar modelos de linguagem sem pedir licença. Que removeu aplicativos de sua loja por pressão política de governos autoritários. Entregar a essa empresa o direito de "antecipar" sua vida não é adotar uma funcionalidade, é assinar uma procuração em branco para o maior aparato de vigilância privada que a humanidade já construiu.

A verdadeira inovação, aquela que liberta em vez de aprisionar, sempre caminhou na direção oposta. Sempre foi sobre dar ao indivíduo o controle das suas próprias ferramentas, não sobre centralizar esse controle numa corporação que responde a acionistas e, quando conveniente, a burocratas. O código aberto, a criptografia ponta a ponta, os modelos de IA que rodam localmente na sua máquina sem mandar um byte para servidor nenhum, isso é progresso genuíno. O resto é vitrine. E vitrine bonita, reconheço. O Gemini é tecnicamente impressionante. Mas um grilhão de ouro continua sendo um grilhão. O fato de ele brilhar não muda a função.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.