Sancionado em abril, o novo Plano Nacional de Educação chega com aquele ar solene de documento que vai mudar o país, e os próprios especialistas reunidos no Festival LED já avisaram, com a delicadeza dos que não querem desagradar ninguém, que sem ação local nada disso sai do papel. Tradução honesta: o governo federal fez o que sabe fazer melhor, que é redigir metas ambiciosas, fotografar a canetada e transferir o ônus para quem está na ponta. Quem manda é Brasília, quem paga é o município, quem leva a culpa quando não funciona é o prefeito do interior. O arranjo é velho, conhecido, e funciona como funciona toda boa fantasia política: distribuindo glória para cima e fatura para baixo.

Olha, o Brasil já viveu este filme. O PNE anterior, vencido em 2024, fracassou em quase tudo que importava, da alfabetização na idade certa ao financiamento prometido, e nem por isso alguém em Brasília perdeu o sono ou o cargo. Agora vem o sucessor, com mais metas, mais indicadores, mais comissões, e a mesma arquitetura defeituosa: um ente federal que decide, um ente municipal que executa sem caixa, e uma burocracia intermediária que se reproduz como mofo em parede úmida. Quer dizer, é planejamento central com endereço pedagógico, e o resultado é tão previsível quanto qualquer outro planejamento central na história: relatórios bonitos, realidade feia.

Me diz uma coisa, quem efetivamente sabe o que falta na escola da zona rural do interior do Maranhão? O secretário em Brasília que nunca pisou lá, ou a diretora que recebe criança sem material, sem merenda decente e sem professor? A resposta é tão óbvia que precisa ser escondida por trezentas páginas de plano nacional, porque admiti-la em voz alta destruiria a justificativa do andar de cima. O conhecimento sobre como educar uma criança específica, numa comunidade específica, com problemas específicos, está disperso entre milhares de famílias, professores e gestores locais, e nenhuma planilha federal jamais será capaz de capturar isso. Mas a planilha federal continua existindo porque ela não serve para educar, serve para empregar quem a produz.

E aqui entra a parte que a imprensa econômica raramente menciona, talvez por distração, talvez por hábito: siga o dinheiro. Quem ganha com um PNE robusto não é a criança analfabeta funcional aos onze anos. Quem ganha é o ecossistema de consultorias, ONGs credenciadas, fundações com aparência neutra, editoras de material didático com contratos garantidos, sindicatos com pauta perene e burocratas com cargos vitalícios atrelados a indicadores que ninguém audita seriamente. O dinheiro do contribuinte entra por uma ponta como imposto compulsório e sai pela outra como salário, contrato e patrocínio dessa indústria paralela que vive de prometer educação sem nunca entregá-la. O que se vê é o plano. O que não se vê é o circuito de captura.

Há ainda o detalhe filosófico, que pesa mais do que parece. Quando o Estado central define, do alto, o que toda criança brasileira deve aprender, quando deve aprender e como deve aprender, ele não está apenas administrando recursos públicos: está moldando consciência. E uma máquina que molda consciência em escala nacional, sob o eufemismo de "diretriz curricular", é exatamente o tipo de instrumento que regimes sérios sobre liberdade jamais entregariam de bandeja a um governo qualquer, muito menos a sucessivos governos com agendas culturais conflitantes. O município, que conhece sua gente, foi reduzido a executor de catequese alheia. Chamam isso de pacto federativo. Eu chamo de outra coisa, mas a palavra é feia.

O resultado prático de tudo isso o leitor já conhece sem precisar de festival, painel ou especialista. Vai haver meta não cumprida, relatório explicando por que não foi cumprida, nova meta substituindo a anterior, e ninguém, absolutamente ninguém, devolvendo um centavo do que foi gasto para não educar. A criança brasileira continuará saindo do ensino médio sem saber interpretar um contrato de aluguel, e a culpa, claro, será do município que não se esforçou, do professor que faltou, do pai ausente, do capitalismo selvagem, de qualquer coisa menos da estrutura que produziu o desastre. Plano nacional para fracasso local: o nome técnico disso é federalismo brasileiro, e o nome honesto é farsa cara.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.