Dez bilhões de euros. É esse o valor da coleira que o novo primeiro-ministro da Hungria vai colocar no próprio pescoço assim que pousar em Bruxelas com a caneta na mão. Chamam de "fundos de recuperação", como se a Hungria fosse um bêbado saindo de coma e a União Europeia uma enfermeira caridosa. A verdade é mais simples e mais feia: a Comissão segurou esses recursos por anos enquanto Orbán resistia, e libera agora porque chegou ao poder alguém disposto a dobrar o joelho. O dinheiro não recupera nada, ele compra. E o que se compra com dez bilhões é exatamente aquilo que a Hungria gastou três décadas tentando manter depois de sair do bloco soviético: a capacidade de decidir suas próprias leis.
Repare na coreografia, porque ela se repete em todo continente desde os anos noventa. Primeiro Bruxelas inventa um critério, Estado de Direito, transição verde, valores europeus, qualquer rótulo serve. Depois condiciona o repasse de verbas que já são, em tese, dos contribuintes do país receptor, ao cumprimento desse critério, definido por burocratas que ninguém elegeu. Por fim, quando o governo local resiste, congela o dinheiro e espera. Espera a inflação corroer, espera a próxima eleição, espera o sucessor mais maleável. É chantagem institucionalizada com nome de política pública, e funciona porque o eleitor médio não consegue mais distinguir um empréstimo de um subsídio, um subsídio de uma esmola, e uma esmola de uma propina.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Esses dez bilhões saem do bolso do trabalhador alemão, do agricultor francês, do pequeno empresário italiano, transitam pela máquina opaca da Comissão, e desembarcam em Budapeste já carimbados com a lista de obrigações. Parte vai para "transição energética", o eufemismo do século para destruir a indústria nacional em nome de metas climáticas redigidas por consultores que nunca puseram a mão num torno. Outra parte vai para ONGs, fundações, "sociedade civil organizada", que é como o continente aprendeu a chamar a infraestrutura ideológica que garante a próxima vitória eleitoral do candidato certo. E ainda sobra para empreiteiras amigas, porque o capitalismo de compadrio é a única coisa que não conhece fronteiras.
Os defensores do acordo vão dizer que a Hungria precisa do dinheiro, que sua economia está combalida, que sem os fundos europeus o país afunda. Olha, é o velho truque da janela quebrada vestido com paletó comunitário. Ninguém pergunta o que o húngaro faria com os recursos que já paga em impostos se Bruxelas não os capturasse antes via contribuições ao bloco. Ninguém pergunta quantas fábricas não foram construídas, quantos empregos não foram criados, quantos filhos não nasceram, porque o capital produtivo do país foi sugado para financiar a burocracia em Estrasburgo e devolvido a conta-gotas, com etiqueta de favor. O que se vê é a obra inaugurada com placa azul e estrelas amarelas. O que não se vê é tudo o que existiria se o dinheiro nunca tivesse saído.
O detalhe mais revelador é cultural, e por isso é o mais importante. A Hungria de Orbán incomodava não por gerir mal as contas, ela tem indicadores fiscais melhores que metade do bloco, mas por insistir em coisas que o establishment continental decretou indizíveis: fronteiras, família, igreja, soberania. Bruxelas não quer apenas o dinheiro de volta nas regras certas, quer a alma do país nos trilhos certos. E aí entra a parte mais sinistra do acordo, aquela que nenhuma manchete vai destacar: as condicionalidades sobre Judiciário, mídia, educação e ONGs. O dinheiro é o cavalo de Troia, a carga é a engenharia social. Quem aceita a verba aceita a régua, e quem aceita a régua aceita o regente.
O novo primeiro-ministro vai voltar a Budapeste sorrindo, dirá que destravou recursos vitais, que reconciliou a Hungria com o continente, que abriu uma nova era. A imprensa internacional aplaudirá. Os mercados subirão. E daqui a dez anos, quando a Hungria for indistinguível de qualquer outra província administrativa do bloco, com sua identidade dissolvida em diretivas e sua economia amarrada em metas que ninguém votou, alguém ainda há de perguntar quando exatamente o país perdeu a soberania. A resposta estará na data da assinatura desta semana. Custou dez bilhões. Saiu barato para quem comprou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.