Rob Livingston assume o comando financeiro da Nu Holdings e o noticiário trata o assunto como se fosse fofoca de conselho de administração de subúrbio. Trocou-se o CFO, ponto final, próximo assunto. Quer dizer, o homem que vai assinar os balanços do maior banco digital da América Latina, decidir como o caixa é alocado, definir quanto risco vai para a carteira de crédito e quanto vai para tesouraria, esse homem aparece em três parágrafos de release corporativo e ninguém se pergunta nada. A imprensa econômica brasileira virou departamento de comunicação terceirizado das próprias empresas que deveria cobrir.

Olha, todo banco que cresce rápido demais chega num ponto onde precisa de alguém que saiba conversar com regulador, com agência de rating, com fundo de pensão americano que cobra trimestre por trimestre. Esse alguém nunca vem da turma do hoodie e do pufe colorido. Vem de Wall Street, vem de Goldman, vem de auditoria Big Four, vem exatamente do mundo que o marketing da fintech passou uma década dizendo que ia incendiar. A revolução envelheceu, comprou terno e contratou o mesmo CFO que o Itaú teria contratado. A diferença é que o Itaú nunca prometeu ser outra coisa.

Me diz uma coisa, qual é o ativo de verdade de um banco digital? Não é o aplicativo bonitinho, não é o roxo da marca, não é a campanha publicitária com influencer. O ativo é o depósito do cliente que rende quase nada e financia operação de crédito que rende muito. É o velho jogo bancário com interface nova. E quem decide para onde esse dinheiro vai, quanto vai virar empréstimo, quanto vai virar título público, quanto vai virar aplicação no exterior, é exatamente o sujeito que acabou de ser nomeado e cuja trajetória ninguém leu com lupa. Siga o caixa e você entende a empresa. O resto é cenografia.

Tem ainda o detalhe geográfico que merece atenção. A Nu Holdings é registrada nas Ilhas Cayman, listada em Nova York, opera no Brasil, no México e na Colômbia, e agora coloca no comando financeiro um executivo que vai responder antes de tudo à lógica do investidor americano. Os juros nos Estados Unidos sobem, a tese da fintech latino-americana sangra, o múltiplo despenca, e a pressão por margem vira ordem de serviço. Tradução prática: quem paga essa conta é o brasileiro que tem conta no banco roxo e vai descobrir, sem aviso prévio, que a tarifa subiu, que o limite caiu, que o crédito ficou mais caro. Sempre foi assim, sempre será assim, e a interface continua bonita.

O que se vê é a manchete sobre o novo CFO. O que não se vê é o conjunto de decisões que esse homem vai tomar nos próximos doze meses e que vão atravessar a vida financeira de dezenas de milhões de pessoas que nem sabem o nome dele. A imprensa que se diz especializada cobre o anúncio como nota social, ignora a substância, e depois finge surpresa quando o cliente reclama da tarifa que apareceu do nada. Banco é banco, em qualquer cor. Quem acreditou que dessa vez seria diferente vai aprender de novo a lição mais antiga do capitalismo financeiro: o dono do dinheiro manda, e o cliente paga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.