A nVent Electric entrou no radar de Wall Street e da imprensa financeira porque seus resultados vieram acompanhados de uma narrativa irresistível, a de que o resfriamento líquido para data centers é o novo ouro da era da inteligência artificial. E é verdade, em parte. Toda essa montanha de GPUs empilhadas em galpões pelo mundo gera calor suficiente para derreter qualquer ilusão de eficiência energética, e alguém precisa resolver o problema físico antes de resolver o problema computacional. Até aí, nada mais natural do que o mercado encontrar quem fornece a pá durante a corrida do ouro.

O que merece um olhar mais frio, justamente, é o entorno do entusiasmo. Quando uma ação dispara porque um setor inteiro está em festa, vale lembrar que toda festa financeira recente foi alimentada pela mesma fonte, juros artificialmente comprimidos durante mais de uma década, expansão monetária travestida de política prudente, e um apetite por risco que só existe porque o dinheiro perdeu a capacidade de dizer não. A inteligência artificial é real, a demanda por infraestrutura é real, mas o preço dos ativos que sustentam essa narrativa carrega muito mais ar do que se admite em público.

A trilha do dinheiro neste setor é instrutiva. Os grandes compradores de soluções como as da nVent são as mesmas hiperscalers que estão queimando capital em ritmo industrial, financiadas por investidores que precisam acreditar que o retorno virá, em algum momento, alguma hora, de algum cliente final disposto a pagar pela mágica. Enquanto isso, o ecossistema inteiro se retroalimenta, fornecedora vende para hiperscaler, hiperscaler vende capacidade para startup de IA, startup queima rodada de venture capital pagando a hiperscaler, e o ciclo continua girando até alguém pedir para ver o lucro. É uma engrenagem linda, desde que ninguém pergunte de onde vem a energia que move tudo.

Há um detalhe quase poético nesse arranjo, o resfriamento líquido existe porque a forma anterior de fazer a mesma coisa, ar condicionado industrial, deixou de dar conta da densidade térmica das novas máquinas. Quer dizer, a tecnologia avançou tanto que o ar virou primitivo, e agora bombeamos líquido refrigerante por dentro dos servidores como se fossem motores de Fórmula 1. É admirável do ponto de vista da engenharia, e revelador do ponto de vista econômico, porque cada salto de eficiência na ponta exige uma estrutura cada vez mais cara, mais especializada e mais dependente de cadeias de suprimento que poucos países dominam.

Olha, o investidor disciplinado faz uma distinção que o noticiário evita. Uma coisa é a empresa com produto real, fluxo de caixa real e clientes reais, e a nVent tem isso, ninguém está negando. Outra coisa é o múltiplo pelo qual essa empresa passa a ser negociada quando vira personagem de uma narrativa coletiva. O preço dos ativos não é a empresa, é a opinião do mercado sobre a empresa multiplicada pelo dinheiro disponível para apostar. Quando a maré do crédito barato baixar, e ela sempre baixa, descobriremos quem estava nadando pelado e quem estava de fato construindo valor.

Me diz uma coisa, alguém ainda lembra que toda euforia tecnológica anterior, das ferrovias ao ponto-com, produziu empresas extraordinárias e ruínas espetaculares ao mesmo tempo? A inteligência artificial vai mudar o mundo, sim, e o resfriamento líquido vai aquecer balanços, sim. O que ninguém pode garantir é que o preço pago hoje pelas ações dessas vencedoras anunciadas será justificado amanhã, quando o custo do capital voltar a ter algum significado e a contabilidade voltar a importar mais do que o storytelling. Aposte na engenharia, desconfie da euforia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.