A notícia chegou em tom comercial, quase burocrática, mas o significado é sísmico. A Nvidia, empresa que virou sinônimo da revolução da inteligência artificial, está procurando companhias de energia da Coreia do Sul para sustentar a infraestrutura de seus data centers. Repare na inversão. Não é a coreana indo bater na porta de Santa Clara pedindo chip; é a dona do chip indo atrás de tomada. O insumo crítico do futuro não é mais o transistor de cinco nanômetros, é o megawatt entregue na subestação. E quem entendeu isso primeiro vai jantar quem ainda acha que basta legislar sobre algoritmo.

Há algo de profundamente irônico em ver a empresa mais valiosa do planeta peregrinar atrás de geradoras num país asiático enquanto o Ocidente passou as últimas duas décadas fechando usina nuclear, demonizando carvão, sabotando hidrelétrica e rezando para o vento soprar. A Coreia, enquanto isso, manteve seu parque nuclear de pé, expandiu capacidade térmica, assinou contratos de longo prazo e agora colhe o que plantou. Não foi sorte, foi escolha. Enquanto a Europa fazia teatro climático e os Estados Unidos travavam licenciamento ambiental por uma década, Seul construiu reator. O resultado está aí, escrito em letras garrafais no balanço da Nvidia.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais nítida. Cada novo data center de inteligência artificial consome o equivalente energético de uma cidade média. Não estamos falando de luxo, estamos falando de pré-condição. Sem energia barata, abundante e despachável, não existe modelo de linguagem, não existe reconhecimento de imagem, não existe a tal singularidade que os profetas de gravata venderam nos congressos. Existe apagão. E quem hoje detém capacidade ociosa de geração tem nas mãos o petróleo do nosso tempo, com a vantagem de não depender do humor de xeique nenhum.

O Brasil, claro, observa tudo isso da janela. Sentados em cima de uma das matrizes energéticas mais limpas e baratas do mundo, com hidrelétricas que outros países invejariam, conseguimos a façanha de transformar essa vantagem comparativa em pesadelo regulatório. Encargo setorial, subsídio cruzado, bandeira tarifária, judicialização de leilão, ideologia ambiental travando linha de transmissão, reserva de mercado para fonte cara em nome da virtude verde. O resultado é que a indústria pesada foge, o data center prefere o Chile, e nós ficamos discutindo se cobramos mais imposto de quem ainda não desistiu do país. Não é falta de potencial, é excesso de palpiteiro.

Há uma lição maior escondida nessa corrida coreana, e ela contraria o catecismo da época. Não se constrói civilização decretando metas, se constrói garantindo as bases físicas e jurídicas que permitem ao homem produzir. Energia é base física. Propriedade segura é base jurídica. Tudo o mais é consequência. Quem inverte a ordem, achando que primeiro vem a aspiração ambiental e depois a engenharia que a sustenta, acaba importando chip pago em dólar caro enquanto exporta seus melhores cérebros para trabalhar em data center alheio. A Nvidia está apenas confirmando, em linguagem de balanço, aquilo que qualquer pessoa de bom senso já sabia: a realidade não pede licença para o slogan.

No fim da história, o megawatt vence o megabyte. Sempre venceu, e quem não viu, vai pagar caro a aula.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.