O sábado em Madri trouxe a notícia que a imprensa cultural adora servir morna: O Agente Secreto levou prêmios no Platino, o documentário Apocalipse nos Trópicos de Petra Costa também subiu ao palco, e o cinema brasileiro voltou a ser celebrado como locomotiva artística da América Latina. Bonito. Comovente. E, como sempre, com uma pegadinha que o telejornal das oito esquece de mencionar entre uma lágrima e outra do diretor agradecendo. Quem pagou o ingresso dessa festa não foi o público que comprou bilhete na bilheteria, foi o sujeito que abriu o holerite na sexta e viu metade do salário evaporar antes de chegar em casa.
O cinema nacional, há décadas, opera sob um arranjo curioso: produz filmes que ninguém pediu, premiados em festivais que ninguém assiste, financiados por leis de incentivo que transformam o contribuinte em mecenas involuntário de uma classe artística que despreza politicamente esse mesmo contribuinte. Ancine, Lei Rouanet, fundos setoriais, editais municipais, estaduais, federais; uma rede tão sofisticada de captação que o talento virou detalhe e o lobby virou competência central. Quem domina o formulário de edital prospera. Quem não domina, faz curta-metragem com o próprio bolso e morre desconhecido. A premiação em Madri é o ápice visível de um iceberg cuja base é feita de imposto compulsório.
Olha, ninguém aqui está dizendo que O Agente Secreto não tem mérito. Pode ter, e provavelmente tem. O ponto é outro, e é o ponto que ninguém quer enfrentar: por que diabos o Estado precisa estar no meio dessa equação? Se o filme é bom, o mercado paga. Se o público quer ver, compra ingresso, assina streaming, vira fã. A indústria americana produz mil filmes por ano sem que o IRS tire dinheiro do mecânico do Texas para financiar diretor em Los Angeles. Na Coreia do Sul, os dramas que dominam o mundo nasceram de produtoras privadas brigando por audiência, não de comitês de notáveis decidindo o que o povo deveria querer assistir. A tese de que arte só existe com subsídio é uma das mentiras mais bem vendidas do século vinte, e o Brasil comprou o pacote completo, com brinde e frete grátis.
Quer dizer, há um detalhe ainda mais constrangedor. Petra Costa, diretora de Apocalipse nos Trópicos, construiu carreira documentando o que ela considera ameaças à democracia brasileira, sempre com o lado certinho do espectro político no banco do passageiro. Tudo bem, é livre para fazer. Mas que ela faça com o próprio dinheiro, ou com dinheiro de quem voluntariamente acredita na sua visão. Quando o financiamento vem de tributo extorquido do empresário do interior que vota no exato contrário do que o filme defende, a coisa deixa de ser arte e vira propaganda partidária bancada compulsoriamente pela vítima da propaganda. Se isso parece exagero, troque os nomes e veja se o argumento muda; se um cineasta conservador estivesse usando Lei Rouanet para fazer documentário elogiando determinada figura política, a mesma imprensa que aplaude hoje exigiria CPI amanhã.
O que se vê é o troféu reluzente em Madri, o discurso emocionado, a reportagem laudatória no portal econômico que deveria saber melhor. O que não se vê é a padaria que fechou porque o dono não aguentou a carga tributária, é o pequeno empresário que demitiu três funcionários para pagar o imposto que financiou o edital, é o jovem cineasta sem contato político que jamais conseguirá um centavo porque não sabe a senha mágica do balcão. A festa premiada é visível; o cemitério de oportunidades destruídas para bancá-la é invisível, e é justamente nesse cemitério que mora a história verdadeira.
Cinema bom não precisa de Estado, precisa de público. E público, no Brasil, ninguém pergunta há muito tempo o que ele realmente quer assistir, porque a resposta provavelmente envergonharia metade do tapete vermelho de Madri. Aplauso de júri internacional é fácil quando o ingresso da plateia é cobrado à força do sujeito que nem foi convidado para entrar.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.