O índice das sete maiores de tecnologia acumula valorização que faria corar qualquer bolha histórica, e os analistas de paletó repetem em coro que "desta vez é diferente". Sempre é diferente. Foi diferente com as ferrovias no século XIX, foi diferente com o rádio nos anos 20, foi diferente com a internet em 1999. E foi diferente do mesmo jeito quando a poeira baixou e descobrimos que metade do capital tinha evaporado em projetos que jamais geraram um centavo de lucro real. A novidade tecnológica é genuína; a precificação que se faz dela é que costuma ser fantasia coletiva.

O argumento da casa é singelo. Wall Street precifica hoje uma revolução de produtividade que ainda não apareceu nas estatísticas. As pesquisas do Federal Reserve regional mostram adoção corporativa de IA generativa em torno de 6% das empresas americanas, número que sobe um pouco entre as gigantes e cai para quase nada no comércio, na construção, na indústria de transformação tradicional. O ganho de produtividade agregado segue rodando nos mesmos patíbulos medíocres da última década. Ou seja, a bolsa está comprando, a preços de ouro, um futuro que a economia real ainda não entregou e talvez demore muito mais do que se imagina para entregar.

Aqui entra a parte que ninguém da CNBC quer comentar. Quem está financiando essa orgia de capex em data centers, chips e infraestrutura? Em parte, lucros genuínos de algumas dessas empresas, é verdade. Em parte muito maior, dívida emitida a juros que só fazem sentido num ambiente de liquidez artificialmente expandida por bancos centrais que passaram quinze anos imprimindo dinheiro como se não houvesse amanhã. O amanhã chegou, os juros subiram, e mesmo assim o crédito continua rolando porque a narrativa da IA virou desculpa universal para qualquer alocação extravagante. Siga o dinheiro: o capital barato saiu do governo, passou pelos fundos, irrigou as techs, e a conta vai cair no colo de quem tem poupança em moeda fraca.

Há ainda o detalhe inconveniente da concentração. Cinco empresas respondem por uma fatia obscena do índice S&P 500. Quando um punhado de companhias representa um terço do mercado acionário do país que ainda dita o ritmo financeiro global, não estamos diante de uma economia diversificada e dinâmica, estamos diante de um cassino com cinco mesas de roleta. Basta uma decepção de receita, um regulador nervoso em Bruxelas, um modelo chinês que entregue resultado parecido por um décimo do preço, e o castelo balança. Já balançou em janeiro de 2025 com o susto do DeepSeek e ninguém aprendeu a lição.

O ponto que merece ser dito sem rodeios é o seguinte. Tecnologia revolucionária e bolha de ativos são fenômenos compatíveis, não excludentes. A ferrovia mudou o mundo e quebrou milhares de investidores no caminho. A internet mudou tudo e levou US$ 5 trilhões de capitalização junto na queda. A IA muito provavelmente vai transformar setores inteiros nas próximas duas décadas, e ainda assim quem comprou Nvidia a 50 vezes a receita pode descobrir, no meio do caminho, que estava certo sobre a tecnologia e completamente errado sobre o preço. As duas coisas convivem perfeitamente bem na história econômica, e fingir o contrário é vender ilusão.

Enquanto isso, o brasileiro de classe média olha pra tudo isso de longe, com o real corroído, o juro real mais alto do mundo civilizado, e a fantasia de que comprar ETF de tecnologia americana é estratégia patrimonial. Talvez seja. Talvez seja a maior transferência de poupança de país emergente para tesouraria de big tech já registrada. O tempo dirá quem comprou produtividade e quem comprou apenas o som agradável da palavra futuro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.