A Raízen, joint venture da Cosan com a Shell, vendida durante anos como modelo de eficiência tropical e vitrine do etanol brasileiro no mundo, acaba de protocolar o maior plano de recuperação extrajudicial já visto por estas bandas. Bilhões em dívida renegociada, prazos esticados, deságios negociados a portas fechadas, e o discurso de sempre saindo bem ensaiado da assessoria de imprensa, aquela conversa de reorganização, ajuste de capital, ciclo desafiador do setor. Quer dizer, quebrou. Em português claro, gastou mais do que ganhou, apostou no que não devia, e agora pede para o credor segurar a vela enquanto reaprende a andar.

Olha, a recuperação extrajudicial existe por um motivo legítimo, dar à empresa em apuros a chance de renegociar antes de virar pó no tribunal. O problema não é o instrumento, é o contexto. A Raízen não é uma padaria de bairro que quebrou porque o aluguel subiu. É uma das maiores companhias do agronegócio nacional, com acesso privilegiado ao BNDES, a linhas verdes subsidiadas, a financiamentos casados com discurso de descarbonização que abriram cofres públicos e privados durante anos a fio. Quando uma empresa desse porte engasga, não foi azar, foi escolha. Escolha de alavancagem, escolha de expansão financiada na régua errada, escolha de apostar que o açúcar e o etanol continuariam dançando no ritmo que convinha à tesouraria.

Me diz uma coisa, quem vai pagar essa conta no fim do dia? Os bancos credores vão aceitar deságio, claro, mas bancos não absorvem prejuízo, repassam. Repassam no spread de quem pega empréstimo para abrir oficina, no juro de quem financia trator, no custo do capital que encarece tudo que se produz no país. E a parte do BNDES, que é dinheiro do contribuinte travestido de fomento verde, essa some no balanço com nome bonito. O lucro foi privatizado durante a década gorda, distribuído em dividendos para sócios em São Paulo e em Haia. O prejuízo agora vira problema coletivo, repactuado em linguagem de comunicado oficial. Sempre funciona assim, e quem aponta o truque é chamado de radical.

O setor sucroenergético brasileiro é um caso de manual sobre como o casamento entre governo e grandes grupos produz monstros economicamente inviáveis que só sobrevivem na bolha do subsídio. Décadas de proteção ao etanol, de mistura obrigatória na gasolina, de RenovaBio, de crédito direcionado, criaram um ecossistema onde as decisões de investimento não respondem ao consumidor, respondem ao Ministério de Minas e Energia, à ANP, ao próximo decreto. Quando se constrói uma indústria sobre regulação e não sobre demanda real, qualquer mudança de vento derruba o castelo. E aí vem o pedido de socorro, sempre fantasiado de reorganização técnica.

O mais sintomático é a naturalidade com que o mercado financeiro engole o anúncio, como se fosse evento corriqueiro do calendário corporativo. Não é. É a confissão pública de que o modelo de crescimento dopado com dívida barata e narrativa ESG bateu no teto da realidade. Açúcar não rendeu o prometido, etanol disputa espaço com elétrico, câmbio fez estrago no passivo dolarizado, e ninguém na sala de reunião teve coragem de fechar a torneira antes do colapso. Agora a conta chega, e a engenharia financeira é mobilizada para distribuir o estrago entre quem emprestou de boa fé acreditando que gigante não cai.

Fica a lição que ninguém vai querer aprender. Empresa grande demais para quebrar é eufemismo para empresa politicamente conectada demais para pagar pelos próprios erros. Toda vez que o Estado dá colo ao colosso, está condenando o concorrente menor, mais eficiente, mais cuidadoso, a competir no escuro contra adversário com socorro garantido. Capitalismo de verdade exige que quebrar seja parte do jogo, porque é a falência que limpa o sistema das más decisões e libera capital para quem sabe usar. O que estamos vendo aqui é outra coisa, é a reciclagem perpétua do erro com selo de respeitabilidade jurídica. E o contribuinte, esse, continua sendo o avalista involuntário do banquete alheio.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.