Bastou o mercado americano cheirar um corte de juros mais robusto do Federal Reserve para que a velha dança recomeçasse, e ela tem nome técnico bonito, carry trade, mas a tradução honesta seria mais ou menos assim, o estrangeiro pega dinheiro barato lá fora, despeja aqui na renda fixa brasileira que paga juros de país quebrado, embolsa a diferença e some antes que a maré vire. O real se valoriza, a bolsa sorri, os economistas de banco aparecem na televisão dizendo que o Brasil está atraindo capital, e ninguém pergunta a coisa óbvia, que capital é esse e a que custo ele veio.
Olha, é preciso ter coragem para chamar de virtuoso um arranjo em que o país oferece a maior taxa real de juros do planeta porque gasta mais do que arrecada, emite dívida como quem emite panfleto e precisa subornar credor para continuar rolando o esquema. O que a imprensa especializada chama de reprecificação das taxas nos Estados Unidos é, na prática, a confissão de que a festa monetária americana também tem limite, e quando o Fed acena com afrouxamento, o dinheiro especulativo do mundo inteiro sai à caça de rendimento, e o Brasil aparece no mapa como aquele primo endividado que paga juros altíssimos no cheque especial enquanto se acha generoso por convidar todo mundo para o churrasco.
Me diz uma coisa, quem está pagando essa conta? Não é o investidor estrangeiro que entra hoje e sai amanhã com o lucro convertido em dólar. É o trabalhador brasileiro que financia, via imposto, os juros que o Tesouro paga a esses mesmos investidores. É o pequeno empresário que não consegue crédito porque o governo sugou toda a poupança disponível para rolar a própria dívida. É a indústria que perde competitividade quando o real artificialmente valorizado pelo carry trade transforma exportação em prejuízo e importação em festa. Aquilo que se vê é o dólar caindo nas manchetes, o que não se vê é a fábrica fechando no interior porque o produto chinês ficou imbatível.
E aqui mora a perversidade do arranjo, porque tudo isso é apresentado como ciclo virtuoso, como sinal de confiança, como prova de que o país está no rumo certo. Não está. Está apenas alugando estabilidade temporária a juros de agiota, num esquema que funciona enquanto o gringo achar que vale a pena ficar, e que desmorona no instante em que o vento muda, geralmente sem aviso, geralmente no pior momento, geralmente deixando para trás uma cratera cambial que o governo tenta tapar com mais imposto, mais regulação, mais discurso técnico para esconder a incompetência política.
A história desse filme já foi assistida, e o final é sempre o mesmo, capital especulativo entra, infla ativos, distorce preços relativos, gera ilusão de prosperidade, e na primeira turbulência externa evapora. Quem fica com a fatura é quem nunca foi convidado para a festa, o brasileiro comum, que vê o dólar despencar hoje e disparar amanhã, sem entender que entre uma coisa e outra o seu poder de compra foi sendo erodido por um governo gastador, um Banco Central refém da gastança e uma elite financeira que lucra nos dois sentidos da gangorra. Carry trade não é capital produtivo, é aluguel de soberania monetária pago com o suor de quem produz.
Enquanto isso, o ministro da Fazenda fará a habitual aparição triunfal para celebrar a entrada de dólares como se tivesse mérito naquilo que é, no fundo, sintoma de doença e não de saúde. Um país que precisa pagar os juros mais altos do planeta para convencer o estrangeiro a segurar a sua moeda não está atraindo capital, está implorando por crédito de curto prazo no balcão do mundo. E quando o balcão fechar, e ele sempre fecha, sobrará o de sempre, conta para o povo pagar e palanque para o governante explicar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.