A manchete chega embrulhada em linguagem clínica, com ar de descoberta científica, como se alguém tivesse finalmente decifrado o mistério de por que trabalhar cansa. Riscos psicossociais, dizem. O sujeito está estressado no escritório e, num passe de mágica regulatória, o estresse vira fato gerador de obrigação patronal, item de NR, material de ação trabalhista, nicho de consultoria. Quer dizer, a angústia humana, companheira fiel da espécie desde que o primeiro homem teve que decidir se caçava ou dormia, acaba de ser oficialmente transferida para o CNPJ do empregador. E ninguém na redação do Valor parece minimamente curioso em perguntar quem ganha com isso.

Olha, a lógica é antiga e sempre a mesma. Cria-se um conceito vago o bastante para caber tudo, atribui-se ao empregador a responsabilidade por administrá-lo, e em seguida surge um ecossistema inteiro de profissionais certificados, auditores, psicólogos organizacionais, advogados especializados, cursos de compliance emocional, tudo faturando em cima de uma obrigação que não existia semana passada. O custo desse arranjo não some no ar. Ele entra na planilha, empurra o preço do produto, corrói a margem da pequena empresa que não tem departamento jurídico, e no final das contas paga quem? Paga o consumidor no caixa do mercado e paga o jovem que não será contratado porque contratar virou operação de risco psiquiátrico.

Existe uma coisa curiosa nesse tipo de regulação, que é a capacidade de transformar adultos em pacientes permanentes. O trabalhador, antes tratado como agente capaz de escolher onde, como e para quem vender seu tempo, vira agora um organismo frágil que precisa ser protegido de reuniões longas, de metas exigentes, de chefe rabugento, de segunda-feira. O discurso é humanitário, a prática é infantilizante. E infantilizar é a forma mais eficiente de governar, porque criança não negocia, criança obedece e espera o adulto resolver. O adulto, nesse caso, é o Estado regulador, cercado de especialistas que descobriram na dor alheia uma oportunidade de carreira.

Produtividade, dizem os otimistas da nova norma, vai aumentar. Funcionário saudável rende mais. Talvez. Mas há uma pergunta que ninguém faz, que é se a produtividade sobe quando cada conversa entre gestor e subordinado precisa ser filtrada por um protocolo antiburnout, quando demitir mau desempenho vira risco de processo por assédio psíquico, quando a simples cobrança de entrega pode ser enquadrada como violação de integridade psicossocial. O que se vê é o seminário bonito sobre bem-estar corporativo. O que não se vê é o empresário que decidiu não abrir a segunda filial, o vago que não virou vaga, o contrato CLT que virou PJ, o PJ que virou aplicativo, o aplicativo que virou desemprego disfarçado.

A verdade é que ninguém nunca provou, em lugar nenhum do planeta, que adicionar camadas regulatórias a uma relação voluntária entre duas partes adultas melhora a vida de alguém que não seja o regulador e seus agregados. O que se prova, repetidamente, é que cada nova obrigação empurra o mercado formal para a informalidade, a informalidade para a precariedade, e a precariedade para o bolsa qualquer coisa que o governo da vez inventar. É uma máquina perfeita, porque gera o problema que depois vende a solução, e cobra dos dois lados. O trabalhador protegido no papel é o trabalhador sem carteira no asfalto.

No fim, toda essa conversa sobre riscos psicossociais é a velha pilhagem com roupa nova, agora costurada em tecido terapêutico. Transforma sofrimento em mercadoria regulada, terceiriza ao patrão a função de psiquiatra, ao Estado a função de sacerdote, ao consultor a função de lucrar com ambos. E deixa o trabalhador, supostamente protegido, exatamente onde sempre esteve, só que agora com menos vagas, menos margem de negociação e mais um monte de gente explicando, com voz mansa, que tudo isso é para o seu próprio bem. Quando alguém diz que vai te proteger de ti mesmo, segura a carteira; é ali que começa a conta.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.