Existe uma empresa brasileira cujo produto principal é ajudar brasileiros a deixar o Brasil. Ela tem marca, método, escala e agora mira expansão internacional. O mercado que atende é suficientemente grande para justificar investimento em branding e presença global. O Valor Econômico cobre o fenômeno com o entusiasmo reservado a histórias de empreendedorismo bem-sucedido, e está tecnicamente certo: é um negócio sólido, com demanda crescente, em setor que não dá sinais de desaquecer. O que o jornal não diz, e que cabe a quem lê nas entrelinhas, é que a robustez desse mercado é proporcional ao grau de disfunção do país que o gerou. Nenhum setor cresce com essa consistência sem um problema igualmente consistente por baixo.
O perfil do novo cliente é revelador. Não é o trabalhador sem qualificação que atravessa fronteiras na esperança de um salário em dólar. É o profissional com mais de quarenta anos, capital acumulado, empresa estabelecida e filhos em idade escolar que sentou, calculou e chegou a uma conclusão que nenhum economista oficial vai anunciar em conferência: a relação custo-benefício de construir vida no Brasil virou negativa para quem tem patrimônio a preservar. Vistos de empreendedor para brasileiros nos Estados Unidos cresceram 22% enquanto os vistos temporários despencaram quase 24%. O mercado não mente. O capital vai para onde é tratado melhor, e o talento, quando tem escolha, segue o capital.
Há uma ironia que a narrativa do "novo imigrante estratégico" prefere não nomear. O Brasil passou décadas construindo um Estado que prometia proteger o trabalhador, garantir o empreendedor nacional, estimular o mercado interno, reter a riqueza dentro das fronteiras. O resultado é um mercado multimilionário de consultoria especializada em ajudar exatamente esses trabalhadores, esses empreendedores e esse capital a cruzar o oceano. Cada regulação que tornou mais difícil contratar, cada imposto que tornou mais caro produzir, cada instabilidade jurídica que tornou mais arriscado investir, cada reforma que nunca veio, alimentou a demanda pelo serviço de quem diz: existe outra saída, e eu te ajudo a encontrá-la.
Siga o dinheiro até o fim. Quem paga a consultoria de imigração? Quem tem capital suficiente para investir nos aportes exigidos pelo visto de empreendedor americano, que na prática começa em cem mil dólares e frequentemente ultrapassa um milhão? A classe produtiva brasileira, aquela que paga a maior fatia da carga tributária, gera empregos, itera produtos, corre risco e sustenta o orçamento do Estado. São exatamente essas pessoas que estão partindo com planejamento, com marca e com expansão internacional. O Estado perde o contribuinte mais qualificado e, como bônus, ainda não vai cobrar taxa de saída, o que é, provavelmente, o único favor que ainda faz sem cobrar.
O paradoxo americano completa o quadro. Sob a administração mais abertamente hostil à imigração da história recente dos Estados Unidos, o visto para o empresário brasileiro cresceu. Isso não é contradição, é lógica. O discurso político diz fechar a porta; o interesse real de uma economia que precisa de capital e talento mantém uma janela aberta, pequena, cara e burocrática, mas aberta. E os brasileiros que encontraram essa janela não são os que cruzam fronteiras na esperança, são os que chegam com investimento, com empresa montada e com advogado de imigração pago. Meritocracia funcionando, curiosamente, no único lugar onde não se tem vergonha de chamá-la pelo nome.
O Brasil não expulsa seus melhores por crueldade deliberada. Expulsa por acúmulo. Cada nova obrigação acessória, cada licença que demora dois anos, cada imposto com nome de sigla que mais ninguém lembra por que foi criado, cada reforma previdenciária que vem seguida de outra reforma previdenciária, cada governante que descobre a MMT quando precisa de votos, cada planejamento de longo prazo trocado pelo próximo ciclo eleitoral. O mercado de consultoria de imigração é o termômetro mais honesto que o Brasil tem. E enquanto ele crescer, o diagnóstico está feito: o país ainda não entendeu que reter quem pode ir embora exige mais do que retórica de soberania nacional.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.