A SAP, aquela mesma que durante décadas vendeu a promessa de organizar o caos das corporações com seus ERPs intermináveis, agora anuncia que vai se transformar numa "empresa orientada por inteligência artificial". Repare na construção da frase, porque ela é uma obra-prima do vazio gerencial. Toda empresa diz a mesma coisa hoje, do banco regional ao fabricante de parafuso, e o investidor, treinado a salivar diante de três letras mágicas, abre a carteira sem perguntar o que exatamente está comprando. É o equivalente corporativo da indulgência medieval: você paga agora, e a salvação chega depois, talvez, se Deus quiser, e se o roadmap não for revisado no próximo trimestre.
Olha, transformação corporativa anunciada com fanfarra raramente é o que parece. Quando um conglomerado de cinquenta e poucos anos, com receita travada em contratos de manutenção que rendem como anuidade vitalícia, decide do dia para a noite que precisa "se reinventar", a pergunta honesta não é se vai dar certo, é quem vai bancar a aposta. A resposta, invariavelmente, está nas linhas pequenas dos balanços: demissões em massa rebatizadas de "realocação de talentos", aumento de capex disfarçado de investimento em inovação, e margens espremidas que serão explicadas como "fase de transição". O acionista paciente entende. O acionista impaciente vende. E o executivo que vendeu o sonho recebe o bônus antes que a poeira assente.
Há um detalhe técnico que os entusiastas evitam mencionar. A inteligência artificial generativa, esta novidade que supostamente vai redesenhar o capitalismo, ainda não provou que gera retorno proporcional ao que se gasta com ela. Os custos de inferência são absurdos, os modelos envelhecem em meses, a margem dos fornecedores de chips cresce enquanto a margem de quem implementa encolhe, e o cliente final, aquele que paga a licença da SAP, ainda quer mesmo é que o sistema não caia na folha de pagamento do dia 5. Vender IA para uma corporação tradicional é como vender turbina de avião para fazendeiro: bonito no folder, inútil no trator, e quem entende do negócio sabe disso, mas o conselho aprovou.
Existe ainda a dimensão menos confortável, aquela que ninguém comenta nas teleconferências de resultado. Empresas que se declaram "orientadas por IA" estão, na prática, anunciando que vão substituir julgamento humano por padrões estatísticos calibrados em dados do passado. Bonito quando funciona, catastrófico quando não funciona, e impossível de auditar quando algo dá errado, porque o algoritmo não presta contas, não tem CPF, não senta na cadeira do tribunal. A responsabilidade evapora, e com ela evapora também aquela velha disciplina que mantinha gestores acordados de madrugada: o medo de errar pessoalmente. Agora a culpa é do modelo, e o modelo não dorme, mas também não dá entrevista.
Para o investidor de visão longa, o sinal a observar não é o discurso, é o uso do caixa. Se a SAP vai recomprar ações enquanto fala em revolução, o teatro está montado para o curto prazo. Se vai sangrar margem comprando computação na Amazon e na Microsoft para treinar seus modelos, está terceirizando o futuro para os próprios concorrentes em outras frentes. E se vai cortar trinta por cento da força de trabalho para mostrar disciplina ao mercado, então a "transformação" é, na verdade, uma reestruturação clássica com nome de marketing, daquelas que se faziam nos anos noventa sem precisar invocar nenhum espírito tecnológico. Mudaram a embalagem, o conteúdo é o mesmo.
O ponto incômodo é que ninguém erra sozinho nesse jogo. O capital que financia essa farra de promessas vem de fundos de pensão, planos de previdência, poupanças de gente comum que confia que algum adulto na sala está olhando o balanço. Quando a maré da IA virar, e ela vai virar, porque toda febre tecnológica vira, quem vai pagar a conta não será o CEO que recebeu o pacote de saída de oito dígitos, será o trabalhador alemão de 58 anos que viu sua aposentadoria evaporar porque o gestor do fundo achou que SAP a 240 euros era barato. Promessa de reinvenção é o nome moderno do velho conto do vigário, só que com slides melhores.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.