A Motorola anunciou a Hello UI, sua interface própria para celulares Android, e o noticiário de tecnologia tratou o assunto com a reverência habitual que se dedica a qualquer comunicado de imprensa bem redigido. Na prática, estamos falando de uma camada de tinta sobre uma parede que já estava pintada. O Android, criado como sistema aberto, virou há anos o chassis sobre o qual cada fabricante monta sua carroceria particular, menos por necessidade técnica e mais por necessidade comercial. Ninguém quer vender um celular que pareça igual ao do concorrente, mesmo que por baixo do capô o motor seja rigorosamente o mesmo. A Hello UI é, portanto, menos uma conquista da engenharia e mais um exercício de identidade visual com pretensões de ecossistema.
O fenômeno não é novo e merece ser observado com a frieza que o tema exige. Samsung tem a One UI, Xiaomi tem a HyperOS, e agora a Motorola, que já passou por tantas encarnações corporativas que seria preciso um genealogista para rastrear sua linhagem, resolve que também precisa de um nome bonito para o que sempre fez: reorganizar ícones, mudar a fonte do relógio e adicionar dois ou três atalhos que ninguém pediu. Há algo de patético nessa corrida cosmética. É como se construtoras diferentes comprassem todas o mesmo tijolo, o mesmo cimento e a mesma ferragem, e depois brigassem para ver quem pinta a fachada da cor mais original. O mérito real, o trabalho pesado de erguer a estrutura, pertence a quem escreveu o kernel e a quem mantém o projeto aberto, gente que em geral não aparece em evento de lançamento nem posa para foto com celular na mão.
O que incomoda de verdade não é a existência da Hello UI, que é inofensiva como qualquer papel de parede, mas a narrativa que a acompanha. Fala-se em "experiência do usuário" como se o sujeito que compra um Motorola de dois mil reais estivesse aflito por uma interface proprietária. O que esse sujeito quer é que o aparelho funcione, que a bateria dure, que a câmera não minta sobre as cores do mundo e que nenhum aplicativo pré-instalado fique sugando dados em segundo plano para alimentar perfis publicitários que ele nunca autorizou de verdade. Mas resolver esses problemas dá trabalho, exige engenharia de verdade, exige decisões que contrariam o departamento comercial. Trocar o nome da interface e fazer um evento de lançamento é infinitamente mais barato e rende manchete igualzinho.
Há uma lição antiga aqui, tão antiga quanto a primeira vez que alguém tentou vender aparência no lugar de substância. Cada camada de software que se coloca entre o sistema operacional e o dedo do usuário é uma camada de controle. Controle sobre quais aplicativos aparecem primeiro, sobre quais serviços são sugeridos, sobre quais dados são coletados e para onde vão. Quando uma fabricante diz que está "personalizando a experiência", o que ela está dizendo, em linguagem menos publicitária, é que está colocando seu pedágio na estrada que liga o usuário ao sistema. Algumas cobram caro, outras cobram barato, mas todas cobram. A moeda nem sempre é dinheiro; às vezes é atenção, às vezes é informação, às vezes é simplesmente a liberdade de escolher sem ser empurrado.
O Brasil, que consome smartphones como poucos países no mundo, deveria ter mais interesse em discutir o que acontece debaixo dessas interfaces bonitinhas do que em celebrar cada nova skin como se fosse revolução. Temos engenheiros competentes, temos gente que entende de código aberto, temos uma comunidade técnica que, se fosse levada a sério, poderia exigir dos fabricantes algo mais do que cosméticos. Mas o ciclo se repete: a empresa anuncia, o site de tecnologia reproduz, o consumidor aceita, e ninguém pergunta por que, num sistema que nasceu aberto, cada vez mais portas se fecham com chave alheia. A Hello UI não é o problema. O problema é achar que trocar a maçaneta resolve alguma coisa quando a fechadura pertence a outro.
Com informações do Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.