Toda revolução tecnológica produz, em sua esteira, uma legião de vendedores de banha. Com os robôs aspiradores não foi diferente. O sujeito entra na loja virtual, vê um modelo anunciando 2.000 Pa, outro gritando 4.000 Pa, um terceiro berrando 8.000 Pa, e conclui, na lógica infantil do quanto mais melhor, que o último é necessariamente quatro vezes superior ao primeiro. Não é. O Pa, abreviação de pascal, mede pressão de sucção, ou seja, a força com que o aparelho puxa o ar e, junto com ele, a sujeira. É a mesma unidade que aparece em previsões meteorológicas e em manuais de engenharia hidráulica, e tem uma definição precisa: um newton de força distribuído por um metro quadrado de área. Nada de mágica, nada de marketing.

O problema é que a indústria descobriu, faz tempo, que número grande vende. E passou a inflar a especificação com a desenvoltura de um político em ano eleitoral. Há fabricantes anunciando dez mil pascais como se aquilo fosse uma conquista da civilização, quando na prática a sucção bruta é apenas uma das variáveis que determinam se o bicho limpa ou se apenas redistribui poeira pela casa. Escova rolante, formato do bocal, tipo do filtro, padrão de navegação e até a rigidez das cerdas pesam tanto quanto, ou mais, do que o numerozinho estampado na caixa. É o velho truque de quem confunde cavalaria com cavalo.

Para o caso específico dos animais domésticos, e aqui mora a pergunta que interessa ao dono de cachorro peludo ou de gato persa, a régua razoável começa em torno de 2.500 a 3.000 Pa, desde que o aparelho venha com escova de borracha ou silicone, que não embola o pelo, e com um bocal bem desenhado. Abaixo disso, o robô gira em falso. Acima de 4.000 Pa, os ganhos passam a ser marginais e quase sempre não compensam o salto de preço. Quem tem casa com tapete grosso ou raça que solta pelo industrial pode mirar nos 5.000 Pa, mas com a consciência de que está pagando, em boa parte, pela tranquilidade psicológica de ter comprado o número maior.

Há ainda a velha confusão entre potência elétrica do motor, medida em watts, e pressão de sucção, medida em pascais. São coisas distintas. Um motor potente pode ter sucção pífia se a engenharia do duto for ruim, e um motor modesto, bem projetado, pode produzir resultado superior. É o eterno princípio segundo o qual a forja vale mais do que o ferro bruto. Quem entende de oficina sabe que ferramenta boa não se mede pelo peso, e sim pela precisão com que cumpre o que promete. O resto é folheto de feira.

Vale ainda lembrar que o robô aspirador, por mais sofisticado que seja, é uma extensão do braço humano, e não um substituto da consciência doméstica. Ele não pensa, não decide, não recolhe a meia caída atrás da poltrona. Faz aquilo que foi mandado fazer dentro dos limites da própria mecânica. Comprar o aparelho certo, portanto, exige menos fé no marketing e mais leitura atenta da ficha técnica, exatamente como se faria ao comprar um motor, uma furadeira ou qualquer outro objeto que se respeite. A tecnologia doméstica só serve a quem entende o que está comprando. O resto vira museu de tralha cara na lavanderia.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.