A pergunta circula nos corredores do mercado com ar de perplexidade fingida: o que precisaria acontecer para o Congresso finalmente se mexer diante de juros que sufocam a economia brasileira? A resposta honesta é desconfortável e ninguém em Brasília quer pronunciá-la em voz alta. O Congresso não age porque o Congresso é parte do problema, não da solução. Cada centavo de juro alto financia a farra fiscal que os mesmos parlamentares aprovam sorrindo na quarta e cobram providências na sexta. É como o incendiário que liga para os bombeiros pedindo que apaguem o fogo enquanto esconde o galão de gasolina nas costas.
Olha, a mecânica é elementar e está escrita em qualquer manual sério de economia monetária, desses que os assessores parlamentares fingem nunca ter lido. Governo gasta mais do que arrecada, emite dívida para cobrir o rombo, o Tesouro precisa rolar essa dívida pagando ao investidor um prêmio que compense o risco, e o Banco Central, vendo a inflação que essa gastança fabrica, sobe a taxa básica para tentar segurar a fervura. O resultado é o brasileiro pagando juro de cartão de crédito que faria corar um agiota napolitano, enquanto o governo federal continua emitindo, gastando, subsidiando e distribuindo cargos como se dinheiro brotasse em árvore.
Quer dizer, quando alguém pergunta o que faria o Congresso agir, a tradução literal é: quando esses senhores parariam de votar gastos novos e começariam a cortar despesas? A resposta empírica, sustentada por décadas de observação, é nunca. O parlamentar brasileiro foi eleito com a promessa explícita ou implícita de levar emenda, criar programa, expandir benefício, abrir vaga em concurso, isentar setor amigo. Cortar gasto é assinar o próprio atestado de derrota na eleição seguinte. Por isso o teatro: discursos inflamados contra a Selic alta enquanto as mãos votam tudo o que mantém a Selic alta. Hipocrisia institucionalizada com hora marcada no plenário.
E aqui vale seguir o dinheiro, esse exercício que tantos colunistas evitam por preguiça ou por covardia. Quem ganha com juro alto? Os bancos, óbvio, que captam barato e emprestam caro. O grande detentor de título público, que recebe rendimento real generoso enquanto o pequeno poupador come o pó da inflação. Os fundos de previdência dos privilegiados de sempre. O grande fornecedor do Estado, que tem contrato indexado e prazo de pagamento blindado. Quem perde? O empresário pequeno, que não consegue capital de giro a taxa civilizada. O jovem que queria comprar a primeira casa e descobre que a parcela equivale ao salário inteiro. O trabalhador que vê o crédito consignado virar bola de neve. A coincidência de quem ganha estar sempre próximo do poder e quem perde sempre longe dele não é coincidência, é desenho.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que existe alguma fórmula técnica capaz de produzir juro baixo enquanto se mantém déficit primário crônico, expansão real da despesa obrigatória, vinculações constitucionais que blindam tudo o que importa e um arcabouço fiscal que de fiscal só tem o nome? Essa fantasia de que dá para gastar como social-democracia escandinava cobrando imposto de república bananeira e ainda assim ter juro de país sério é o equivalente macroeconômico de acreditar em moto perpétuo. Não funciona, nunca funcionou em lugar nenhum, e não vai funcionar aqui por mais que se reúnam comissões mistas, se contratem consultorias e se publiquem notas técnicas.
O Congresso só vai agir quando o custo político de não agir superar o custo político de agir. Em outras palavras, quando o eleitor finalmente conectar os pontos entre o vereador que pede voto, o deputado que aprova emenda, o senador que defende vinculação e a parcela do financiamento que dobrou de tamanho. Enquanto essa conexão não for feita na cabeça de quem vota, o teatro continua. A plateia paga o ingresso, paga o cachê dos atores, paga o aluguel do teatro e ainda é convidada a aplaudir no final. A conta da irresponsabilidade fiscal sempre chega, e sempre chega endereçada ao mesmo lugar: o seu bolso.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.