A Oddity Tech, aquela plataforma israelense-americana que vendia maquiagem com algoritmo e prometia revolucionar a beleza com inteligência artificial, entregou ao mercado no primeiro trimestre de 2026 uma queda forte no lucro por ação e mandou as ações para o porão. Os analistas, claro, falam em "ventos contrários macroeconômicos", "pressão de margem" e outras expressões de feitiçaria contábil que servem para uma única coisa, esconder do investidor que a festa do dinheiro grátis acabou e ninguém quer ser o primeiro a apagar a luz.

Olha, é preciso ter uma cara de pau considerável para tratar como novidade o que estava escrito na parede desde 2022. Quando o banco central americano inundou o mundo com liquidez na pandemia, qualquer empresa com um pitch deck bonito e a palavra "AI" no slide três virou unicórnio. Os múltiplos explodiram, o consumidor americano de classe média, embriagado com cheque de estímulo e juro real negativo, comprou batom premium como se fosse arroz. Agora que o juro voltou ao real, ao palpável, ao doloroso, o mesmo consumidor olha para o carrinho da Sephora digital e descobre que tem boleto para pagar.

Quer dizer, ninguém destruiu a Oddity. O que aconteceu foi mais sutil e mais brutal, o preço do dinheiro voltou a existir. Durante quase uma década o mercado operou numa fantasia em que capital era infinito, paciente e gratuito, e nesse cenário qualquer modelo de negócio fechava na planilha. Empresa de beleza vendendo via app com margem apertada e custo de aquisição de cliente nas alturas? Sem problema, basta queimar caixa de investidor até a próxima rodada. Só que a próxima rodada agora cobra juros reais, e a planilha que antes fechava no romance, agora não fecha na aritmética.

Siga o dinheiro e a história fica ainda mais clara. Os mesmos fundos que empurraram a Oddity para o IPO em 2023 com avaliação esticada são os mesmos que agora, silenciosamente, rebalanceiam carteira e empurram a queda. O varejista de batom virou variável de ajuste no portfólio de quem precisa mostrar retorno aos cotistas. O CEO fala em "investimento em longo prazo" e "pipeline robusto" enquanto o pregão executa, com a frieza de um carrasco profissional, o veredicto que o mercado já tinha rascunhado meses atrás. Não há vilão aqui, há apenas o sistema funcionando, finalmente, como deveria ter funcionado o tempo todo.

A lição que ninguém quer aprender é que crescimento financiado por dinheiro artificialmente barato não é crescimento, é encenação. Toda vez que uma autoridade monetária resolve brincar de fada-madrinha e suprimir a taxa de juros abaixo do que o mercado pediria espontaneamente, ela está, sem dizer, decretando que daqui a alguns anos haverá uma fila de empresas como a Oddity explicando aos jornalistas econômicos por que o trimestre foi "desafiador". O desafio não está no trimestre, está na década anterior, está na mentira coletiva que confundiu liquidez com produtividade, e barateamento de capital com prosperidade real.

No fundo, a queda da Oddity não é uma notícia sobre maquiagem nem sobre algoritmo, é mais um capítulo da longa epopeia em que o mundo redescobre, à força e com prejuízo, que não existe almoço grátis e que toda festa monetária termina com alguém pagando a conta. Geralmente é o pequeno cotista, aquele que entrou pelo aplicativo da corretora seduzido pela manchete, e não a mesa de operações que já saiu pela porta dos fundos. O batom continua o mesmo, o que mudou foi o espelho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.