A oferta de aquisição do UniCredit sobre o Commerzbank chegou a 7,85% e o mercado fingiu surpresa, como quem descobre que o vizinho de portaria estava escutando atrás da parede há meses. Não foi acidente, não foi oportunidade de momento, foi movimento calculado num tabuleiro onde o Banco Central Europeu distribuiu as peças há mais de uma década, quando decidiu que juro zero era política e não anomalia. Quando você empurra o custo do dinheiro para baixo da linha do absurdo durante anos, o que sobrevive não é o banco mais eficiente, é o banco mais bem posicionado para engolir cadáver com aparência de saúde.

Olha, o Commerzbank é a herança envergonhada do modelo bancário alemão, aquele que prometia solidez teutônica e entregou décadas de retorno sobre patrimônio que faria corar uma caderneta de poupança brasileira. O governo alemão ainda segura participação relevante na instituição desde o socorro de 2009, o famoso resgate "pontual e excepcional" que virou casamento permanente entre contribuinte e balanço podre. Quer dizer, o cidadão alemão paga imposto há quinze anos para manter de pé um banco que agora pode acabar nas mãos de Milão por preço de liquidação dissimulada. Isso tem nome, e o nome não é mercado livre.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. O UniCredit não está comprando porque acredita no futuro radiante do crédito empresarial alemão; está comprando porque a regulação bancária europeia, desenhada por comitês que nunca emprestaram um centavo na vida, criou um arranjo onde escala virou única defesa contra o peso regulatório. Cada exigência de compliance, cada relatório de risco climático, cada teste de estresse fabricado em laboratório burocrático empurra os bancos médios para o abraço dos grandes. O resultado pretendido era "estabilidade sistêmica". O resultado obtido é concentração, oligopólio e fim de qualquer concorrência real entre praças bancárias nacionais.

E aí entra a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Berlim não pode bloquear a operação sem virar hipócrita aos olhos de Bruxelas, afinal foi a própria Alemanha que pregou o evangelho do mercado único bancário enquanto isso convinha às suas exportações. Agora que o mercado único bate na porta do Commerzbank de terno italiano, o discurso muda de tom, aparecem ministros falando em "interesse estratégico nacional", "soberania financeira" e outras palavras bonitas que significam apenas uma coisa, queremos livre mercado para os outros e protecionismo para nós. É o mercantilismo de sempre, vestido com a roupa do século vinte e um.

O que o leitor brasileiro precisa entender olhando esse circo é o seguinte. Quando o Estado entra para "salvar" um banco, ele nunca sai mais. Quando o banco central manipula juro por uma década, ele não cria prosperidade, cria zumbi corporativo dependente de respiração artificial. E quando a conta chega, ela chega sempre pelo lado mais fraco, o poupador que viu seu dinheiro perder valor, o empreendedor que não conseguiu crédito porque os bancos preferiram comprar título público garantido, o contribuinte que pagou três vezes pela mesma instituição falida. A oferta de 7,85% não é notícia de fusão bancária, é certidão de óbito de um modelo que prometeu segurança e entregou servidão.

No fim das contas, a Europa descobre tarde demais que terceirizar o cálculo econômico para burocratas em Frankfurt produz exatamente o que produziu em toda tentativa histórica de substituir mercado por comitê, decadência elegante disfarçada de coordenação técnica. O UniCredit não é vilão nem herói nesta história, é apenas o predador racional que entendeu antes dos outros que o caçador também envelhece. Quando o aço alemão verga ao gesto italiano sem um tiro, o que ruiu não foi um banco, foi a ilusão de que se podia ter capitalismo sem capitalistas, mercado sem risco e moeda sem dono.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.