O petróleo emendou mais uma semana de alta porque americanos e iranianos continuam travados naquele teatro previsível em que cada lado finge negociar enquanto a frota mercante mundial se ajoelha diante de um estreito de quarenta quilômetros de largura. O Estreito de Ormuz é a artéria por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, e basta um aiatolá tossir mais alto, ou um porta-aviões americano cruzar com a bandeira errada hasteada, para que o barril suba dois, três, cinco dólares no fechamento de Nova York. Quer dizer, a economia global continua refém de uma geografia que não muda há três mil anos, mas os economistas de gravata insistem em chamar isso de choque externo, como se fosse meteorito caindo do céu e não consequência direta de escolhas humanas muito identificáveis.

Olha, vale a pena fazer a pergunta que ninguém quer fazer em rede nacional: quem ganha com a guerra que não termina? O complexo industrial militar americano fatura bilhões em contratos emergenciais sempre que o Oriente Médio ferve. As petroleiras estatais do Golfo aplaudem em silêncio cada míssil disparado, porque cada míssil é mais um dólar no barril que elas vendem. Os traders de Londres e Chicago, que apostam em derivativos de petróleo, ganham nos dois lados da mesa, ganham na alta e ganham na volatilidade. E o regime iraniano, que está há quatro décadas se sustentando no púlpito do antiamericanismo, precisa do conflito tanto quanto precisa de oxigênio, porque sem inimigo externo a juventude de Teerã derrubava aquele governo numa tarde de quinta-feira.

Me diz uma coisa, quem perde nessa equação? O sujeito que abastece o carro em São Paulo, em Goiânia, em Recife. O caminhoneiro que transporta a alface até o mercado da esquina. A dona de casa que vai sentir no preço do botijão de gás. Porque o petróleo, esse líquido escuro que parece distante da vida cotidiana, é o sangue invisível da economia inteira. Quando ele sobe, sobe o frete, sobe o plástico, sobe o adubo, sobe o transporte público, sobe a passagem aérea, sobe tudo que se move ou que foi movido. E o brasileiro, que já paga um dos combustíveis mais caros do mundo graças ao festival tributário que o governo chama de Petrobras, vai descobrir mais uma vez que crise internacional é coisa que ele financia sem ter direito a voto.

O detalhe que os jornais econômicos não destacam é que toda essa fragilidade não é natural, é construída. Décadas de política energética baseada em dependência de uma única região, de uma única matriz, de um único corredor marítimo, são fruto de decisões tomadas por planejadores que acharam que sabiam mais do que o mercado. A Europa apostou no gás russo e descobriu, com a guerra na Ucrânia, que tinha entregue a chave da própria casa ao vizinho hostil. Os Estados Unidos passaram décadas estrangulando sua própria produção doméstica em nome de fantasias ambientais, para depois descobrir, com choque fingido, que estavam novamente reféns do Golfo Pérsico. E o Brasil, sentado em cima de uma das maiores reservas de petróleo do planeta, transformou sua estatal energética em palco de loteamento político e cabide de empregos sindicais.

O que se vê é o preço do barril subindo na manchete. O que não se vê é a cadeia inteira de incentivos perversos que tornou possível um mundo em que meia dúzia de mulás barbudos pode chacoalhar a inflação global apenas anunciando que vão fechar uma passagem de água salgada. Mercados livres, com produção descentralizada, fontes diversificadas e rotas múltiplas, seriam imunes a esse tipo de chantagem geográfica. Mas mercado livre dá pouco voto em comício e pouca foto em cerimônia de assinatura de acordo bilateral, então preferimos o sistema atual, em que a humanidade inteira torce pela boa vontade de um regime teocrático para conseguir encher o tanque do Uber.

A novela vai continuar, o barril vai oscilar, o dólar vai dançar, e os ministros vão à televisão explicar que a alta da gasolina é culpa do cenário internacional, como se eles próprios não tivessem passado a década inteira votando contra cada projeto que reduziria essa dependência. No fim, o cidadão comum paga a conta de uma guerra que ele não declarou, em um estreito que ele não navega, por causa de um acordo que ele não assina. Esse é o capitalismo que nos venderam, e ele cheira mais a querosene de jato diplomático do que a livre iniciativa.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.