O fato é simples e a reação é didática. Trump recusa publicamente a proposta iraniana de aliviar tensões, e o petróleo Brent dispara em minutos, arrastando consigo o humor das bolsas e o bolso de meio planeta. Repare bem na sequência, porque ela ensina mais sobre economia do que qualquer manual de faculdade: não foi descoberta de novo poço, não foi quebra de oleoduto, não foi greve de refinaria. Foi uma frase. Uma frase de um político mexeu com um mercado que move trilhões. Quem ainda acredita que o preço da energia é fenômeno puramente técnico precisa rever as premissas, porque o que se viu hoje foi geopolítica fazendo o que sempre fez, dar as cartas enquanto o consumidor assiste.

Há um ponto que os comentaristas de televisão fingem não enxergar, e ele é incômodo justamente porque é óbvio. O barril caro não é acidente, é projeto. Cada sanção, cada embargo, cada recusa diplomática redesenha a oferta global de petróleo no atacado, e essa redação é feita por meia dúzia de homens em salas fechadas em Washington, Teerã, Riad e Moscou. Eles fingem que negociam paz; estão negociando margem. O Irã oferece concessão, os americanos respondem com nariz torcido, e o spread vai parar no preço do diesel que move a soja que vai virar exportação que vai sustentar reserva cambial. Tudo conectado, tudo opaco, e tudo cobrado de quem nunca teve voz na mesa.

Existe uma ilusão confortável de que mercados energéticos seriam livres. Não são, e nunca foram desde que o petróleo virou ativo estratégico no início do século passado. O que existe é um cartel de produtores conversando com um cartel de reguladores, cada lado fingindo controlar o outro, e no meio uma engrenagem de bancos centrais prontos para imprimir moeda quando o choque de oferta apertar demais. Quando o barril sobe por decisão política, a inflação que vem depois também é política, embora seja vendida como fatalidade meteorológica. E aí entra o truque mais antigo do livro: o governo cria o problema vendendo armas e sanções, e depois aparece como salvador oferecendo subsídio ao combustível, financiado por imposto que sai do mesmo cidadão que está pagando a gasolina mais cara. Roubo em dois turnos, com aplauso no intervalo.

O leitor atento deve perguntar a quem aproveita o aperto. Não é difícil seguir a trilha. As grandes petroleiras americanas viram suas ações subirem na hora; os fundos especulativos que estavam comprados em energia abriram champanhe; o complexo industrial militar respira aliviado porque tensão no Golfo significa contrato renovado e orçamento aprovado sem debate; e os emiratos amigos da Casa Branca passam a vender o barril deles mais caro sem precisar produzir uma gota a mais. Do outro lado da equação está o trabalhador americano que abastece uma pickup, o caminhoneiro brasileiro que tem margem espremida, o europeu que vai passar o inverno calculando se aquece a sala ou o quarto. A redistribuição é violenta, silenciosa e travestida de política externa firme.

Para o Brasil, o recado é duplo e ninguém vai dizer em voz alta. De um lado, somos beneficiados marginalmente porque temos petróleo, e a Petrobras vai engordar caixa que será distribuído em dividendo a acionista e em sangria via política de preços manipulada pelo governo de plantão. De outro, importamos diesel, importamos fertilizante, importamos inflação embutida em tudo que vem de fora, e a nossa autoridade monetária vai ser obrigada a manter juro alto por mais tempo, sufocando o pequeno empresário que não tem nada a ver com o que Trump disse ou deixou de dizer a um aiatolá. Quem produz no interior do Mato Grosso vai pagar duas vezes pelo desentendimento alheio, e ainda vai ouvir economista de banco explicar na CNN que o problema é o teto de gastos.

Resta a lição que se repete a cada ciclo e que ninguém quer aprender. Enquanto a energia for refém de canetas e não de produtores, enquanto o dinheiro for impresso por monopólio estatal para abafar os efeitos colaterais das próprias intervenções, enquanto a guerra for mais lucrativa que a paz para quem fabrica as duas, o cidadão comum vai continuar sendo a variável de ajuste em um cálculo que ele nem sabe que está fazendo. Petróleo subiu hoje porque um homem disse não. Amanhã cai porque outro homem dirá sim. E você, no posto, paga os dois.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.