O preço do petróleo ultrapassou cem dólares por barril em março e chegou a bater cento e vinte e oito dólares no começo de abril, após a guerra entre os Estados Unidos e o Irã tornar o Estreito de Ormuz efetivamente inutilizável para o comércio global. Pelo estreito passam normalmente vinte por cento do petróleo e do gás natural que movem o mundo. Com o bloqueio iraniano reduzindo em mais de noventa por cento o fluxo de navios, onze milhões de barris por dia deixaram de circular. Isso não é um "choque de oferta" de manual acadêmico. É o resultado previsível, calculável e reiteradamente ignorado de décadas de dependência voluntária de uma rota controlada por um regime que nunca escondeu suas intenções. A surpresa, aqui, é que alguém ainda se surpreende.
Por décadas, o preço "estável" do petróleo foi uma ilusão de custo zero sustentada por presença militar americana no Golfo Pérsico. Cada barril barato que chegou às refinarias ocidentais desde os anos oitenta carregava um subsídio invisível: o custo de frotas de guerra posicionadas para garantir a rota. O contribuinte americano pagou pela "estabilidade", o consumidor europeu e brasileiro usufruiu, e ninguém apresentou a conta de forma inteligível. O sistema de preços de mercado tentou sinalizar esse risco durante décadas por meio de prêmios geopolíticos, volatilidade em momentos de tensão, discussões sobre diversificação de rotas que nunca se materializaram em política real. O sinal foi ignorado em favor da conveniência. Agora o sinal chegou em forma de nota de cobrança, e ela não aceita parcelamento.
Vale a pena seguir o rastro do dinheiro, porque alguém sempre ganha quando o mundo perde. Os produtores de xisto americano, cuja viabilidade econômica começa a ficar interessante acima de oitenta dólares por barril, estão comemorando em silêncio. A Arábia Saudita, cujas exportações não dependem de Ormuz, mas sim do terminal de Yanbu no Mar Vermelho e do oleoduto Petrolina, enfrenta menos concorrência e vende mais caro. Os fabricantes de equipamentos militares faturaram desde o primeiro dia do conflito. Enquanto isso, analistas em Nova York já calculam em voz alta a possibilidade de duzentos dólares por barril se o estreito permanecer fechado por mais alguns meses. Não existe guerra sem beneficiários. A questão que a imprensa comportada evita formular é: quem tinha interesse em que ela acontecesse?
O efeito sobre a economia real não aparece imediatamente no preço da gasolina. Chega antes nos custos de transporte, nos insumos agrícolas, no plástico, no cimento, no frete aéreo, em cada cadeia logística que depende de energia para funcionar. O Banco Mundial já revisou a projeção de crescimento global de dois e meio para menos de dois por cento, o que em linguagem de economistas elegantes significa que dezenas de milhões de pessoas ficarão mais pobres do que ficariam. Essa perda não tem nome, não tem rosto, não aparece em nenhuma cerimônia de coletiva de imprensa. O imposto inflacionário é o tributo perfeito: invisível, universal e cobrado com mais ferocidade de quem não tem como se proteger dele. O trabalhador paga no supermercado aquilo que o estrategista decidiu num gabinete em Washington ou Teerã.
O cessar-fogo foi anunciado com a pompa habitual dos comunicados diplomáticos. O problema é que, em 9 de abril, duzentos e trinta navios carregados ainda aguardavam dentro do Golfo, o CEO da ADNOC confirmou publicamente que o estreito continuava fechado, e o Irã impunha condições para liberar o tráfego. A burocracia da paz opera em tempo real nos comunicados e em câmera lenta na realidade física. Isso não é disfunção, é a natureza do poder estatal: ele declara, ele proclama, ele certifica, mas não controla as forças que colocou em movimento. A ironia é que os mesmos governos que produziram o caos agora são apresentados pela mídia como a única solução possível para ele, uma circularidade que deveria ser mais constrangedora do que é.
O petróleo a cem dólares não é um acidente geopolítico. É o preço de mercado de décadas de cálculo errado, dependência voluntária e arrogância do planejador que achou que conseguia controlar o Oriente Médio com porta-aviões e acordos de Abraão. O sistema de preços não mente, não tem ideologia, não tem agenda. Ele apenas apresenta, com frieza matemática, a conta exata de cada ilusão que insistimos em manter.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.