O petróleo Brent fechou o primeiro trimestre de 2026 a 118 dólares o barril, a maior alta em termos reais desde 1988, depois que a ação militar no Estreito de Ormuz tirou 10 milhões de barris por dia do mercado global, a maior interrupção de oferta da história. Agora o barril recuou para algo perto de 95 dólares, e Nadia Lovell, a chefe de estratégia global de ações da UBS, aparece na Bloomberg para dizer que o impacto nos lucros corporativos e na economia americana será "contido". Quer dizer, o preço da energia, que é o sangue de toda cadeia produtiva, explodiu 40% em semanas, destruiu demanda no mundo inteiro, e a mensagem do banco suíço é: circulem, não há nada para ver.
Olha, essa receita é velha. Toda vez que o custo da energia dispara e começa a corroer o bolso do cidadão comum, do frentista ao dono de padaria, aparece um estrategista de banco de investimento com um gráfico bonito explicando que o efeito será "transitório", "moderado", "limitado". Foi assim antes de cada recessão das últimas cinco décadas. O petróleo sobe, o combustível sobe, o frete sobe, a comida sobe, tudo sobe, e o sujeito de terno no estúdio da Bloomberg diz que a economia vai absorver o choque. Absorver como? Com o salário de quem? Com a margem de qual empresa? A verdade é que a destruição de demanda que trouxe o barril de 118 para 95 dólares não é sinal de alívio. É sinal de dor. Significa que pessoas e empresas pararam de consumir porque não aguentam o preço. A Agência Internacional de Energia já projeta queda no consumo global de petróleo em 2026. Isso não é estabilidade, é recessão vestida de ajuste.
Me diz uma coisa: por que o barril explodiu? Porque governos fizeram o que governos fazem, que é transformar disputas geopolíticas em catástrofes econômicas para populações que não pediram guerra nenhuma. O bloqueio naval no Estreito de Ormuz, a escalada militar, o fechamento de rotas que transportam um quinto do petróleo mundial, tudo isso é consequência de decisões políticas tomadas por pessoas que nunca vão sentir o preço da gasolina no próprio bolso. O barril chegou a flertar com 150 dólares no mercado físico. E agora que existe um sopro de negociação entre Washington e Teerã, o mercado recua e os analistas celebram como se fosse mérito deles. Não é. É o medo de que a destruição de demanda se torne irreversível.
A UBS, no seu "House View" de abril, aposta que a interrupção de oferta será breve e que os preços vão cair o suficiente para as ações subirem. É o cenário-base. Bonito no papel. Mas cenários-base de banco de investimento são como promessas de campanha: servem para acalmar quem precisa acreditar. O cenário real é que o mercado de energia passou por um choque de oferta histórico, que a capacidade ociosa da OPEP é limitada, que a infraestrutura do Estreito de Ormuz não se reconstrói com otimismo, e que cada dólar a mais no barril de petróleo é um dólar a menos na renda disponível de famílias que já estavam espremidas. A própria agência americana de energia, a EIA, projeta o Brent a 115 dólares no segundo trimestre. Isso é "impacto limitado"?
Quando o preço da energia sobe, não existe setor da economia que fique imune. Transporte, alimentos, manufatura, logística, tudo é derivado do custo energético. Dizer que o impacto será "contido" é ignorar que a economia é uma teia, não uma planilha com células isoladas. O caminhoneiro que paga mais caro no diesel repassa para o supermercado, que repassa para a dona de casa, que corta consumo em outro lugar, que fecha uma loja, que demite um funcionário. Essa cadeia é invisível nos modelos da UBS, mas é brutalmente real na vida de quem não tem ações no portfólio. E no Brasil a coisa é pior, porque além do petróleo em dólar, temos o câmbio jogando contra, o custo Brasil eterno e uma política de preços da Petrobras que é mais opaca que vidro fumê. Cada centavo no barril internacional vira uma pequena tragédia doméstica multiplicada por 210 milhões de pessoas.
A lição é simples e se repete a cada crise: governos criam o problema, o mercado paga a conta, e Wall Street aparece no final para dizer que não foi nada grave. O petróleo não subiu por acidente, não vai cair por bondade, e o impacto não será "limitado" para quem vive de salário. Será limitado, talvez, para quem vive de comissão sobre ativos sob gestão.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.