Existe um padrão na história que os jornais de serviço sempre se recusam a descrever com nitidez: quando uma grande potência decide usar sua marinha de guerra para "estabilizar" uma rota comercial, a estabilidade que ela oferece nunca é gratuita. O pedágio é cobrado em petróleo mais caro, em contratos de defesa renovados, em dependência energética transferida de um fornecedor para outro, e em dólares, sempre em dólares. O bloqueio do Estreito de Ormuz pelos Estados Unidos não é uma exceção a esse padrão; é o padrão em estado puro, executado com a confiança de quem sabe que nenhuma câmera vai apontar para o beneficiário certo.
Siga o dinheiro. Enquanto o Brent e o Henry Hub subiam nas primeiras horas depois do anúncio, quem sorria discretamente eram os produtores de xisto americano que operavam no vermelho com o barril abaixo de 75 dólares, os exportadores de GNL que já tinham contratos de emergência prontos para assinar com europeus desesperados, e os fabricantes de sistemas de mísseis e fragatas que faturam exatamente nos momentos em que o noticiário diz "escalada". A crise de energia que "abalou os mercados", como diz o comunicado da Bloomberg com aquela linguagem de boletim meteorológico que não quer nomear o agricultor que abriu a torneira, tem endereço comercial bastante preciso. Crise para uns é receita para outros, e os outros já estavam posicionados.
O que ninguém vê, porque o olhar está fixo na chama do Golfo Pérsico, é o custo distribuído silenciosamente sobre bilhões de pessoas que não votaram nessa decisão e não serão consultadas sobre ela. Cada centavo a mais no combustível é um imposto não declarado, cobrado sem votação no Congresso, sem lei publicada no Diário Oficial, sem debate em comissão parlamentar. É o tipo de tributação que os reis medievais aplicavam quando fechavam as rotas comerciais e exigiam pedágio dos mercadores; a diferença é que o rei medieval pelo menos estava fisicamente presente na porteira. O Estado moderno cobra a distância, com porta-aviões.
Me diz uma coisa: onde está o discurso do livre comércio agora? A mesma potência que passa décadas pressionando países em desenvolvimento a abrir suas fronteiras econômicas, reduzir tarifas e deixar o mercado funcionar, acabou de fechar militarmente uma das mais importantes rotas comerciais do planeta. Não é hipocrisia ocasional; é mercantilismo com tecnologia de quinta geração. A doutrina muda conforme a conveniência geopolítica, mas o núcleo permanece o mesmo desde as Guerras do Ópio: o livre mercado é sagrado quando beneficia quem tem mais navios. Quando não beneficia, aparece a frota.
O Irã não é um regime para ser defendido aqui; qualquer governo que sufoca sua população merece o julgamento que a história sempre reserva para tiranos. Mas a questão não é quem é o vilão da narrativa, porque toda crise desse porte tem vilões suficientes para encher um teatro. A questão é o que acontece depois, quem paga a reconstrução, quem fornece o gás natural de substituição a preço de emergência, quem financia a dívida que os países importadores vão contrair para absorver o choque. Essas perguntas têm respostas conhecidas, e as respostas têm bandeiras, bolsas de valores e lobistas em Washington. A escalada não começou este fim de semana; começou quando alguém decidiu que o fracasso das negociações era mais lucrativo do que o sucesso delas.
No fim, o que o bloqueio de Ormuz demonstra com uma clareza quase didática é que a energia nunca foi apenas uma commodity; sempre foi um instrumento de poder, e quem controla o instrumento controla quem depende dele. Povos que entregaram sua matriz energética às decisões de outros soberanos não são aliados estratégicos; são reféns com salvo-conduto temporário. O preço do petróleo subiu nos mercados, mas o preço real, aquele que não aparece nos terminais da Bloomberg, é a soberania que foi silenciosamente colocada no leilão.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.