O Estreito de Ormuz tem, em seu ponto mais estreito, cerca de 33 quilômetros de largura navegável. Por esse gargalo passa, em condições normais, algo próximo a 20% de todo o petróleo comercializado no planeta. O Irã já vinha apertando esse gargalo há semanas, o que explica o déficit de quase 5 milhões de barris por dia que as reservas estratégicas americanas estavam cobrindo a conta-gotas. Agora Trump anunciou que a Marinha dos Estados Unidos vai bloquear tudo que tente entrar ou sair do estreito, incluindo qualquer embarcação que tenha pago "pedágio" ao Irã. O resultado imediato foi petróleo a mais 7%, futuros da bolsa americana em queda e analistas recalculando até onde as reservas estratégicas aguentam antes de virarem pó. O que o mundo tinha era um problema. O que o mundo tem agora é o mesmo problema, mais caro e com bandeira diferente.
Existe uma tradição antiga, muito anterior a qualquer governo moderno, de usar bloqueios navais como instrumento de pressão econômica. A lógica sempre foi a mesma: corte o suprimento do inimigo e ele se renderá antes que você precise invadir. O problema histórico com essa lógica é que ela funciona muito bem no papel e muito mal na água, especialmente quando o bloqueador e o bloqueado disputam exatamente o mesmo recurso que está sendo bloqueado. Quando a potência que impõe o bloqueio depende do fluxo que está interrompendo, o instrumento de guerra vira instrumento de autoflagelação. A Marinha americana vai patrulhar o Estreito de Ormuz num momento em que as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos já estão sendo consumidas para cobrir um déficit que, segundo analistas de energia, pode dobrar, de 5 milhões para 10 ou 11 milhões de barris por dia, caso o fluxo não seja restaurado nas próximas semanas.
Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro. O petróleo subiu 7% em uma sessão, o que representa um dos maiores saltos em meses. Quem acorda mais rico com petróleo a mais 7%? As produtoras americanas de shale, que operam com custo mais alto que os produtores do Golfo e precisam do preço elevado para fechar a conta. As empresas de defesa e de logística naval, que vão receber contratos para manter essa operação. Os países que possuem reservas estratégicas que agora podem vender mais caro. Quem acorda mais pobre? Todo consumidor de combustível no planeta, toda empresa que usa cadeia logística global, toda economia emergente que não tem hedge contra alta de commodities e que vai importar inflação junto com o diesel. O mercado precificou a guerra em minutos. A inflação vai chegar em meses. O consumidor vai notar no bolso em até um ano, quando já não haverá mais câmera nem coletiva de imprensa para atribuir a responsabilidade.
Há algo quase teatral na geometria deste momento. O Irã bloqueou o Estreito, o que criou uma crise de abastecimento. A resposta americana a essa crise de abastecimento foi bloquear o mesmo estreito. Quer dizer, o problema era a ausência de livre trânsito pelo Estreito de Ormuz e a solução escolhida foi garantir, desta vez com porta-aviões americanos, a continuidade da ausência de livre trânsito pelo Estreito de Ormuz. A diferença, presumivelmente, é que agora quem cobra o pedágio fala inglês. Toda intervenção no Oriente Médio das últimas quatro décadas começou com uma justificativa análoga: estabilizar o que estava instável, corrigir o que estava errado, restaurar o que foi perturbado. O resultado histórico é suficientemente consistente para ser chamado de padrão.
As reservas estratégicas de petróleo são finitas por definição. Foram construídas para cobrir interrupções temporárias de abastecimento, não para substituir o mercado por tempo indeterminado. Com o déficit atual em torno de 5 milhões de barris diários e potencial para dobrar caso o bloqueio se consolide dos dois lados, o prazo em que essas reservas sustentam o mercado sem colapso de preço é uma variável que os mercados já começaram a calcular. Quando as reservas acabarem, o preço que o petróleo vai encontrar não será o de hoje, após 7% de alta. Será o preço que o mercado descobrir num ambiente onde a principal artéria de abastecimento do planeta está bloqueada por dois inimigos que, ironicamente, chegaram ao mesmo resultado por caminhos opostos.
O dólar subiu. Isso é o mercado dizendo que, em momento de pânico geopolítico, o mundo ainda corre para o ativo americano por falta de alternativa melhor, não por convicção. O petróleo subiu mais. Isso é o mercado dizendo a verdade que os comunicados oficiais não dizem: que a situação piorou, não melhorou; que o conflito escalou, não recuou; e que a conta desta escalada, como a de todas as que vieram antes, vai parar no bolso de quem não estava na sala quando a decisão foi tomada. Nenhum presidente pede permissão ao consumidor antes de fechar um estreito. A bomba de gasolina, no entanto, é democrática: ela cobra de todos, sem distinção de voto.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.