Existe uma categoria de pessoa que a civilização moderna perdeu o costume de reconhecer: aquela que define seus próprios critérios de excelência e não aceita que o calendário, o consenso ou a opinião dos outros sejam árbitros da sua trajetória. Lindsey Vonn não declarou que vai voltar às Olimpíadas de 2030. Declarou que voltará se conseguir ser rápida. A diferença entre essas duas afirmações é a diferença entre uma atleta e uma celebridade, entre alguém que entende o que faz e alguém que faz porque ainda tem público.
O que ela disse ao canal da CNBC foi, na prática, uma declaração de padrão pessoal numa era em que padrão pessoal virou suspeito. O mundo do esporte, como qualquer outro setor capturado pela indústria do entretenimento e pela lógica do engajamento, há muito substituiu o critério da performance pelo critério da narrativa. Não importa se você é bom, importa se sua história é boa. Nesse contexto, uma mulher de 45 anos disputando descida livre nas Olimpíadas seria, antes de tudo, uma ótima narrativa, um conteúdo, um clipe de dois minutos com fundo musical emocionante. Vonn, ao colocar a velocidade como condição, está recusando esse papel. Está dizendo que só vai se puder vencer, ou ao menos competir de verdade. É quase subversivo.
Quer dizer, há algo profundamente esquecido na insistência de tratar o corpo como propriedade própria e não como objeto de tutela coletiva. Toda geração produz seus especialistas em dizer às pessoas quando parar, quando se aposentar, quando "aceitar os limites da idade com dignidade", como se dignidade fosse sinônimo de rendição antecipada. O atleta que insiste em competir após certa idade é tratado com uma mistura de admiração condescendente e preocupação velada, como se a decisão sobre o próprio corpo pertencesse a algum comitê de guardiões do bom senso. Vonn parece imune a esse tipo de pressão, e isso diz mais sobre ela do que qualquer medalha.
Olha, vale perguntar o que exatamente incomoda tanto quando alguém como ela faz esse tipo de declaração. A resposta honesta é que incomoda porque contradiz a narrativa dominante sobre o tempo, sobre o corpo e sobre o que é possível. A narrativa dominante tem interesse em que as pessoas aceitem limites cedo, que se aposentem na hora certa, que não façam ondas. Um corpo que continua funcionando fora do prazo previsto é uma anomalia incômoda para quem organizou o mundo em caixinhas cronológicas. Vonn é uma pergunta não respondida para todo um sistema de crenças sobre o que é normal.
Que ela chegue a 2030 e seja rápida, ou que chegue e decida que não é mais o caso e vire as costas sem drama, são dois desfechos igualmente dignos, porque em ambos o critério é dela. O que seria indigno, o que seria a verdadeira derrota, seria aparecer nas pistas de Alpe d'Huez por outra razão que não a velocidade. Por patrocínio, por legado, por "inspirar a próxima geração", por qualquer uma daquelas justificativas que os atletas usam quando a performance já foi mas o palco ainda chama. Ela deixou claro que não é isso. E essa clareza, num mundo onde quase ninguém sabe mais quando está fazendo algo por si mesmo, é a coisa mais rara que existe.
Me diz uma coisa: quando foi a última vez que alguém com câmera na cara e dinheiro na mesa disse "só faço se conseguir ser bom"? Essa frase é o antídoto para quase tudo que está errado na cultura do espetáculo. Guarda ela bem.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.