O Grupo Aeroportuário Centro Norte, o famoso OMA, anunciou que maio fechou com 3,6% de alta no tráfego de passageiros em seus treze aeroportos mexicanos. Não é número de foguete, ninguém está dizendo que houve milagre. É crescimento consistente, no escuro, sem alarde, do jeito que economia de verdade cresce quando ninguém está atrapalhando. E é justamente esse detalhe sem graça que merece atenção, porque enquanto um operador privado mexicano soma passageiro mês após mês, a aviação brasileira segue empilhando taxa de embarque, ICMS sobre querosene, contribuição para isso, contribuição para aquilo, e ainda tem coragem de reclamar que o consumidor não voa.
Vale lembrar o que é a OMA antes que algum desavisado ache que é estatal disfarçada. É concessionária privada, listada em bolsa, com acionistas exigentes, obrigada a entregar resultado trimestre após trimestre sob pena de cair de preço e ser engolida. Opera em cidades que ninguém aponta no mapa de turismo glamouroso, Monterrey, Chihuahua, Culiacán, Mazatlán, lugares onde o passageiro voa por trabalho, por necessidade, por família, não por Instagram. E mesmo nesses mercados teoricamente difíceis, o tráfego sobe. Pergunte ao gestor por que sobe e ele dirá algo trivial: porque a tarifa é previsível, a operação é eficiente, e ninguém precisa pedir licença a três ministérios para repintar o terminal.
Compare agora com o que se vê do lado de cá da fronteira. Aeroporto brasileiro virou shopping de cobrança. Cada passagem carrega uma camada arqueológica de tributo, embutida em letrinha miúda que ninguém lê porque foi feita para não ser lida. Some-se a isso o histórico glorioso da Infraero, aquela máquina pública que durante décadas administrou os principais terminais do país produzindo filas, atrasos e prejuízo, tudo ao mesmo tempo. Quando finalmente concederam parte da rede à iniciativa privada, o que aconteceu? Guarulhos virou aeroporto decente, Viracopos virou aeroporto decente, Confins virou aeroporto decente. Não por mágica, por incentivo. Quem opera com dinheiro próprio cuida do banheiro, quem opera com dinheiro alheio cuida da diretoria.
É bom seguir o caminho do dinheiro para entender por que o modelo mexicano funciona e o brasileiro patina. Lá, o passageiro paga tarifa, o operador investe, o investidor cobra retorno, o regulador fiscaliza contrato, fim de história. Aqui, o passageiro paga tarifa, paga taxa de embarque, paga adicional aeroportuário, paga Fundo Nacional de Aviação Civil, paga ICMS embutido no combustível, paga PIS, paga Cofins, e o dinheiro se espalha por uma teia de fundos, autarquias, sindicatos e fornecedores cativos que ninguém audita. Quando o avião atrasa, a culpa é do tempo. Quando a passagem encarece, a culpa é do dólar. Quando a empresa quebra, a culpa é do mercado. A culpa nunca é, jamais será, do arranjo que torna impossível operar com margem civilizada.
O dado mexicano de maio é incômodo precisamente porque é banal. Não há heroísmo nele. Há apenas a constatação repetida há séculos de que onde a propriedade é clara, o contrato é respeitado e a tributação é razoável, a economia cresce sem precisar de discurso. Onde se inverte qualquer um desses três pilares, nem o avião decola. E o Brasil, que adora reunião de planejamento estratégico e plano decenal de aviação civil, segue assistindo de longe enquanto um vizinho menor, menos rico, com menos população e menos imprensa, simplesmente faz a coisa funcionar. Não porque os mexicanos sejam mais inteligentes. Porque o Estado deles, naquele setor específico, aprendeu a fazer aquilo que governo deveria fazer sempre: sair da frente.
A próxima vez que algum gênio sugerir que a solução para a aviação brasileira é mais regulação, mais subsídio para companhia aérea amiga, mais conselho consultivo tripartite, vale lembrar do número de maio do OMA. Três vírgula seis por cento. Sem ministro, sem pacote, sem coletiva. Só contrato cumprido e passageiro embarcando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.