A Organização Mundial da Saúde, aquela mesma que demorou semanas para admitir que havia transmissão humana do coronavírus enquanto Pequim escondia cadáveres, decidiu agora que o surto de ebola no Congo e em Uganda é uma emergência de saúde pública de importância internacional. O carimbo é solene, o vocabulário é grave, e a coreografia é familiar a qualquer um que tenha dois neurônios e memória funcional. Primeiro vem o alarme, depois vem o pedido de dinheiro, depois vêm as recomendações que viram exigências, e no final o cidadão comum descobre que perdeu mais um pedaço da própria autonomia em nome de um inimigo invisível que vive a oito mil quilômetros de distância.

Quer dizer, ninguém aqui está minimizando ebola. A doença é hedionda, mata rápido, e quem a contrai numa aldeia congolesa enfrenta um destino que nenhum ser humano deveria enfrentar. O ponto não é esse. O ponto é a maquinaria que se monta em volta da tragédia, o exército de burocratas que vive de declarar emergências, os consultores que precificam por hora a sua angústia, e os laboratórios que já estão posicionando vacinas experimentais para serem compradas em lote por governos que vão usar o seu imposto sem nunca te perguntar. Siga o dinheiro e você encontra sempre os mesmos nomes, os mesmos endereços em Genebra, os mesmos lobistas circulando entre ministérios e fundações filantrópicas que de filantrópicas só têm o nome.

O surto está concentrado em regiões específicas da África Central, com transmissão localizada e protocolos sanitários conhecidos há décadas. Não é peste negra, não é varíola, não é nada que justifique pânico planetário. O ebola é uma doença com letalidade altíssima e transmissibilidade baixíssima, o oposto exato do que se precisa para uma pandemia global. Mas a declaração de emergência internacional não serve para conter ebola. Serve para liberar verbas, para destravar contratos sem licitação, para autorizar compras emergenciais e para criar o ambiente psicológico no qual qualquer atrocidade administrativa parece razoável diante do espectro da morte. É o velho truque de sempre. Você cria o medo, vende a cura, e cobra antes de entregar.

Olha, em 2020 nós aprendemos a lição mais cara da história contemporânea. Aprendemos que organismos multilaterais respondem a quem os financia, e quem os financia não é você. Aprendemos que recomendações técnicas são fabricadas em comitês onde sentam representantes de fundações privadas com agenda própria. Aprendemos que vacinas podem ser empurradas goela abaixo de populações inteiras com base em estudos que depois precisaram ser corrigidos. Aprendemos que governos adoram emergências sanitárias porque é a única ocasião em que a população aceita ser tratada como gado sem espernear. E aprendemos, sobretudo, que a conta sempre chega, em forma de inflação, dívida pública e liberdades que não voltam quando o vírus vai embora.

O Brasil de 2026 ainda paga, em juros e em rombo fiscal, o festival de gastança de seis anos atrás. As crianças que perderam dois anos de escola não recuperam o tempo. Os pequenos comércios que fecharam não reabriram. Os idosos que morreram sozinhos não voltam. E mesmo assim, a estrutura institucional que produziu aquele desastre segue intacta, financiada com dinheiro do contribuinte, pronta para acionar o próximo alarme. Me diz uma coisa: alguém foi responsabilizado? Algum burocrata perdeu o emprego? Algum laboratório devolveu o lucro? Você sabe a resposta. É sempre a mesma. Quem erra paga é o pagador de imposto. Quem acerta no negócio é quem decreta a emergência.

A vigilância sanitária séria é coisa de comunidade local, de profissionais de saúde no terreno, de gente que conhece o paciente pelo nome e o vizinho pelo apelido. Não é coisa de organismo internacional emitindo comunicado em inglês de Genebra. Quanto mais distante o decisor, mais abstrato o problema, mais grotesca a solução. Antes de aplaudir a próxima emergência global, pergunte quem ganha com ela, quem perde com ela, e por que justo agora. A resposta não está no comunicado oficial. Está no extrato bancário de quem o assinou.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.