O Operador Nacional do Sistema Elétrico acionou, pela primeira vez na vida, um plano emergencial não para impedir que falte energia, mas para impedir que sobre. Leia de novo, devagar, porque a sentença parece saída de um manicômio. O sistema está tão cheio de geração solar e eólica nas horas de sol e vento que o ONS precisa, na marra, mandar usinas desligarem para a rede não derreter. E o brasileiro, claro, paga por tudo isso. Paga o subsídio que financiou a usina, paga a conta cheia para a energia que ela gera, e agora vai pagar também a indenização para ela não gerar. É o único país do mundo onde a abundância vira tarifa extra.
O nome técnico do absurdo é curtailment, e o ralo já consumiu bilhões nos últimos anos sem que a maioria das pessoas tenha a menor ideia do que está bancando todo mês no boleto da Light, Enel ou Equatorial. Cada quilowatt cortado entra como ressarcimento, e o ressarcimento vira encargo, e o encargo entra na tarifa, e a tarifa entra na inflação, e a inflação entra no salário que não acompanha. O ciclo é perfeito: o governo decide que o futuro é renovável, distribui benesses, leilões com preço-teto generoso, isenção de ICMS, financiamento subsidiado do BNDES, e quando a conta chega no transformador, descobre que esqueceu um detalhe chamado linha de transmissão. Faltou fio. Sobrou usina. Faltou planejamento. Sobrou ideologia.
Quem olha para a notícia com olhos de leigo vê uma vitória ambiental e fica feliz. Quem olha com olhos de quem pensa cinco minutos vê o retrato perfeito da economia comandada por gabinete. Um sistema de preços livre teria avisado, há anos, que construir geração no Nordeste sem transmissão para o Sudeste é o equivalente energético de produzir leite no meio do deserto sem caminhão. O preço subiria onde falta, cairia onde sobra, e o capital seguiria o sinal. Mas no Brasil o sinal é abafado por contrato regulado, por leilão dirigido, por meta plurianual fixada em PowerPoint ministerial. Resultado: a tomada do investidor recebe garantia de receita, e a tomada do trabalhador recebe a fatura.
Convém seguir o dinheiro, porque o dinheiro nunca mente. Quem ganha com o festival de geração sem destino são os fundos donos das fazendas solares e dos parques eólicos, muitos deles estrangeiros, que travaram contratos de longo prazo em dólar ou indexados a IPCA com cláusula de ressarcimento integral. Eles geram, recebem. Não geram porque o ONS mandou desligar, recebem do mesmo jeito. É o sonho de qualquer empresário sério: vender produto que o cliente é obrigado a comprar mesmo quando o vendedor não entrega. Acrescente-se a isso o pelotão de consultorias, escritórios de advocacia regulatória, ex-diretores de agência que viraram lobistas, e você tem a geografia completa do capitalismo de compadrio verde, pintado de sustentabilidade para constrangimento de quem reclama.
E aqui está a parte que ninguém vê. Cada real desviado para indenizar usina ociosa é um real que não foi para a fábrica que fecha por causa da tarifa industrial mais cara do planeta, para o pequeno comerciante que enxuga margem com a conta de luz, para a família que troca carne por ovo no fim do mês. O emprego perdido na indústria intensiva em energia não aparece em planilha de ministério, não vira manchete, não dá entrevista. Some-se, contudo, o impacto agregado de uma década dessa engenharia regulatória, e está aí explicada boa parte da desindustrialização que economista de banco insiste em atribuir à China, ao câmbio, ao clima, a qualquer coisa que não seja a mão pesada que o próprio Estado plantou no setor.
O mais cômico, ou trágico, dependendo do humor do leitor, é que o mesmo governo que celebra a transição energética em palanque internacional é o que agora aciona plano emergencial para desligar a transição que ele mesmo construiu sem planejar a entrega. Faz lembrar o sujeito que compra geladeira nova, comemora no Instagram, e descobre depois que não tem tomada em casa. A diferença é que, no caso do sujeito, ele paga o erro do próprio bolso. No caso do governo, paga o seu.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.