Existe uma ironia que nenhuma nota de mercado vai escrever hoje de manhã: durante décadas, quem ameaçou fechar o Estreito de Ormuz foi o Irã. Era o cartão vermelho guardado na manga de Teerã sempre que a pressão ocidental aumentava, um gesto nunca concretizado porque todo mundo sabia o que aconteceria se acontecesse. Donald Trump resolveu pegar esse mesmo cartão, colocá-lo sobre a mesa e apresentá-lo como trunfo. Não é trunfo. É um problema de geometria básica: pelo Estreito de Ormuz passa aproximadamente 20% do petróleo mundial e boa parte do gás natural liquefeito que aquece a Europa. Isso não é um duto privado americano. Bloquear Ormuz significa sancionar os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Kuwait, o Iraque e o Qatar simultaneamente. São aliados. São clientes. São o epicentro do petrodólar que o próprio Trump defende como legado americano.

Siga o dinheiro, como sempre se deve fazer quando o discurso fica confuso. Se Ormuz fecha, o barril de petróleo deixa de ser commodity e vira relíquia. Os preços disparam. Quem ganha com isso? Exatamente quem você não quer que ganhe: a Rússia, maior exportadora de petróleo do planeta, que não passa por Ormuz e fica feliz com qualquer choque de oferta que valorize seus barris; a Venezuela, que também não passa pelo estreito e sorri para o petróleo a 150 dólares; e o próprio Irã, cujas rotas alternativas existem e cuja produção remanescente se valoriza automaticamente com o colapso da oferta global. Quem perde? O motorista americano no posto de gasolina. O industrial europeu que importa energia. O transportador asiático que move a cadeia de manufatura global. A lista de perdedores é, com precisão desconcertante, a lista dos parceiros que os Estados Unidos precisam manter ao seu lado para qualquer projeto que valha a pena neste século.

A história registra com generosidade os casos de bloqueios que afogam quem os decreta. No início do século XIX, um líder continental de ambições imperiais tentou estrangular economicamente o seu principal adversário proibindo os portos europeus ao comércio inimigo. A ideia parecia sólida no papel, elegante até. Na prática, as economias europeias dependiam exatamente do comércio que o bloqueio pretendia extinguir, o contrabando floresceu como indústria nacional em vários países, as tensões com aliados relutantes escalaram em proporção direta à dor econômica, e o projeto desmoronou de dentro para fora. O bloqueador, para tentar forçar a cooperação dos recalcitrantes, teve que avançar militarmente para além de qualquer ponto de retorno, e saiu daquilo destruído para o resto da história. Trocar os nomes não muda a lógica. A lógica não se importa com quem está no poder.

O argumento favorável à ameaça, quando alguém se dá ao trabalho de construí-lo, é o da dissuasão pelo absurdo: se você convence o adversário de que é louco o suficiente para fazer algo autodestrutivo, a ameaça funciona sem precisar ser executada. O problema é que isso exige credibilidade, e credibilidade é exatamente o que evapora quando um analista de mercado, ao vivo, diz em voz alta que a coisa não faz sentido. Uma ameaça que o mercado descarta como teatro não assusta Teerã. Assusta o gestor de fundo que precisa agora decidir se reage ao blefe ou à possibilidade de que o blefe seja real. Essa incerteza tem preço. O preço aparece na fatura de energia do próximo trimestre, e nenhuma nota de rodapé explica ao consumidor que ele está pagando pela indecisão de um negociador.

Há ainda a questão doméstica que ninguém quer pronunciar com clareza. Trump passou anos responsabilizando o governo anterior pela inflação que emergiu, em parte substancial, do choque de oferta energético após a invasão da Ucrânia em 2022. Um bloqueio de Ormuz, mesmo que dure quarenta e oito horas antes de o bom senso institucional prevalecer, produz um choque de oferta imediato e global. O banco central americano, que já opera em terreno delicado com tarifas elevando preços de importação, precisaria responder. A ironia seria completa e cruel: o presidente que prometeu derrubar os preços na bomba tornando-se o autor do maior pico de petróleo em anos, com o seu próprio nome na lista de culpados. A política é, acima de tudo, a arte de não se tornar o vilão da própria narrativa.

O Estreito de Ormuz é a garganta do mundo. Quem ameaça apertá-la precisa ter uma resposta muito boa para a pergunta que sempre vem depois: e daí, o que você faz quando o outro lado não recua? Se não tem essa resposta, o que parece força é barulho, e o barulho, no mercado de energia, é a coisa mais cara que existe.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.