A teleco catariana Ooredoo abriu o ano com receita 6% maior e lucro 4,7% acima do mesmo período anterior, e o detalhe que deveria envergonhar meio mundo veio da boca do próprio CEO em entrevista à Bloomberg, zero interrupções de serviço por causa da crise regional. Repare bem no que isso significa. Há mísseis cruzando o céu, há proxies disparando de três frentes, há embaixadas em alerta máximo, e a empresa que carrega voz e dados de meio Golfo Pérsico não tirou um cliente do ar. Não é sorte, é engenharia de capital. É infraestrutura construída por quem sabe que o cliente paga pelo serviço, não pela narrativa de que o serviço existe.
Compare, só por brincadeira intelectual, com o que se vê quando uma estatal de telecom em qualquer república bolivariana enfrenta uma chuva mais forte. Cai tudo. Cai sem guerra, cai sem míssil, cai sem ataque cibernético, cai porque o orçamento foi para o sindicato, para a comissão de cargos comissionados, para o conselho de administração povoado por afilhados políticos, e sobrou troco para manter a fibra. A diferença entre a Ooredoo operando sob fogo e a teleco subsidiada caindo sob neblina não é cultural, é estrutural. Quem responde ao acionista mantém a rede de pé. Quem responde ao palanque mantém o palanque de pé.
E aqui vale seguir o rastro do dinheiro, porque é o que ninguém faz. A Ooredoo cresce em mercados onde o regulador não decide preço, onde a outorga não é leiloada como favor, onde a tarifa não é congelada por decreto eleitoreiro. O resultado é capex previsível, redundância de infraestrutura, contrato com fornecedor que entrega no prazo porque sabe que será pago. Tire qualquer uma dessas variáveis e você tem o setor brasileiro, onde a operadora gasta mais com advogado tributário do que com torre de transmissão, e o consumidor paga uma das contas mais caras do planeta para receber um sinal que oscila no elevador.
O ponto mais incômodo da entrevista foi o silêncio sobre o óbvio. Ninguém perguntou ao executivo qual o segredo, porque o segredo é constrangedor para quem assiste do hemisfério ocidental progressista. O segredo é que a empresa investe pesado em redundância porque pode reter capital, porque a carga tributária não devora o lucro antes dele virar cabo enterrado, porque o ambiente regulatório é estável o suficiente para planejar dez anos à frente. É o tédio de fazer o trivial bem feito, coisa que economias capturadas pelo intervencionismo esqueceram como se faz.
Há uma lição cruel nisso para quem ainda acredita que o Estado precisa estar em tudo para garantir resiliência. A resiliência aparece justamente onde o Estado se contém. Onde a infraestrutura crítica é tratada como negócio sério, e não como instrumento de campanha, ela aguenta míssil. Onde é tratada como cabide de emprego e ferramenta de redistribuição populista, ela não aguenta vento. O Catar não inventou nada de novo, apenas resistiu à tentação de quebrar o que funciona.
O que se vê é o balanço positivo no trimestre. O que não se vê é a quantidade de capital que foi poupado, reinvestido e protegido por décadas de regras estáveis para que aquele balanço fosse possível em meio ao caos regional. A próxima vez que algum ministro brasileiro subir ao púlpito para anunciar plano nacional de banda larga financiado com dinheiro do contribuinte, lembre-se da Ooredoo. Quem não consegue manter sinal em céu aberto não vai salvar ninguém em tempo de guerra.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.