A notícia chega envolta naquele verniz de sofisticação financeira que costuma disfarçar o óbvio. A OpenAI, segundo o Financial Times, negocia um aporte de até 1,5 bilhão de dólares em uma joint venture apoiada por private equity. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, a empresa que se vendeu ao mundo como missão civilizatória para salvar a humanidade dos perigos da inteligência artificial está batendo na porta dos mesmos fundos que compram hospital para cortar leito e revender, rede de farmácia para fechar ponto de atendimento, e empresa de tecnologia para extrair o último centavo antes do IPO. Quer dizer, a missão virou múltiplo de EBITDA.
O detalhe que ninguém quer discutir é o tamanho absurdo desse balão. A empresa queima caixa numa velocidade que faria corar qualquer tesoureiro soviético, sustenta modelos que custam fortunas para treinar, vende assinaturas com margem negativa, e precisa de rodadas bilionárias a cada seis meses só para continuar respirando. Isto não é uma empresa de tecnologia no sentido clássico. É um esquema de capital permanente que depende de novos aportes para justificar os aportes anteriores, um arranjo que qualquer pessoa com memória de meia década reconhece imediatamente. Se o produto fosse realmente tão revolucionário quanto os comunicados de imprensa afirmam, o próprio produto pagaria a conta. Não paga.
E aqui entra a parte interessante, a que exige seguir o dinheiro com paciência. Private equity não é filantropia. Private equity cobra preço alto, exige retorno garantido em prazo curto, impõe cláusulas de liquidação preferencial que devoram os acionistas minoritários em caso de venda, e costuma reestruturar a governança para proteger o próprio investimento. Ou seja, os mesmos discursos bonitos sobre segurança da IA, alinhamento com valores humanos e responsabilidade civilizatória estão sendo assinados junto com contratos que transferem o controle efetivo da companhia para gente que não tem o menor interesse em discussões filosóficas. Tem interesse em retorno de dois dígitos num prazo que cabe num PowerPoint.
O espetáculo fica completo quando lembramos que a mesma OpenAI passou os últimos anos fazendo lobby agressivo por regulação da inteligência artificial, pedindo ao Estado que criasse barreiras de entrada contra concorrentes menores, que exigisse licenças, auditorias, certificações, comitês. Isso tem nome antigo, e não é proteção do consumidor. É o figurino clássico do grande que usa o poder público para esmagar o pequeno antes que o pequeno vire ameaça. A retórica do risco existencial da IA sempre funcionou como biombo conveniente para impedir que um garoto num quarto de dormitório construísse um modelo aberto melhor que o fechado. Regulação pesada favorece quem tem departamento jurídico de cinquenta advogados, não quem tem uma boa ideia.
A contradição fundamental é digna de ser contemplada com calma. A empresa nasceu como organização sem fins lucrativos prometendo que a inteligência artificial não poderia ser concentrada nas mãos de poucos. Hoje é uma estrutura híbrida de propósito declarado nobre e objetivo real bilionário, que precisa de private equity para sobreviver e que, ao aceitar esse capital, transfere uma fatia do controle justamente para o tipo de ator que ela jurava querer evitar. A grande pretensão de redesenhar o futuro da humanidade termina onde termina toda pretensão de planejar o incognoscível, na mesa de reunião com o gestor do fundo exigindo cronograma de monetização.
Me diz uma coisa, por que ninguém exige a mesma transparência sobre custos, subsídios cruzados e margens operacionais que exigiria de qualquer estatal? Porque a narrativa do messiânico tecnológico ainda funciona como anestesia. Enquanto funcionar, os bilhões continuarão entrando, os discursos continuarão elevados, e a conta final, inevitavelmente, vai chegar para quem sempre chega: o usuário que paga a assinatura, o investidor retardatário que entrou no último round, e o contribuinte que verá o governo correr para socorrer a empresa grande demais para falhar quando a música parar. Inovação virou sinônimo de socialização do prejuízo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.