Repare na cena: de um lado, a imprensa econômica vendendo o fim do mundo a cada manchete sobre o Estreito de Ormuz, com gráficos vermelhos, especialistas de gravata e profecias de barril a duzentos dólares. Do outro, sete países da Opep+ assinando, sem alarde, um acordo para elevar as metas de produção em cerca de 188 mil barris diários já em junho. Quer dizer, os caras que de fato controlam a torneira estão abrindo a torneira, enquanto os caras que controlam a narrativa estão gritando que a torneira fechou. Alguém está mentindo, e não são os que produzem.

Olha, o Estreito de Ormuz é o palco preferido da geopolítica do susto há cinquenta anos. Toda vez que um aiatolá tosse, o barril sobe cinco dólares; toda vez que um navio quase encosta em uma mina, o futuro do petróleo dispara em Chicago antes mesmo de a notícia ser confirmada. O detalhe que ninguém comenta é quem ganha dinheiro nesse intervalo entre o boato e o desmentido. Não é o motorista que abastece em São Paulo. Não é a dona de casa que paga o gás. É o trader sentado em Genebra, é o fundo soberano apostado em derivativo, é o próprio governo arrecadando tributo sobre combustível com base em preço inflado por pânico fabricado.

Me diz uma coisa, se o estreito estivesse mesmo fechado, sete produtores estariam comprometidos a despejar mais óleo no mercado em trinta dias? Pelo contrário, fechariam a torneira para ordenhar a escassez até o último centavo. O fato de estarem aumentando a oferta revela o que os comunicados oficiais nunca dirão: a crise é menos crise do que parece, e a oferta global continua robusta o suficiente para absorver tensões pontuais. Os produtores conhecem o jogo, sabem que preço alto demais por tempo demais acelera substituição, fomenta xisto americano, empurra o consumidor para o elétrico e mata a galinha dos ovos de ouro. Eles preferem o barril em torno de setenta a oitenta dólares, lucrativo e sustentável, do que a noventa com o mundo todo correndo para se livrar do petróleo.

O que se vê é a manchete. O que não se vê é o cartel calibrando, o trader lucrando, o governo arrecadando, o consumidor pagando e o jornalista repetindo o roteiro escrito por quem se beneficia do roteiro. A Opep+ é cartel, sempre foi, e cartel sobrevive não pela fidelidade dos membros, mas pela útil ilusão de que cada barril a mais é uma concessão generosa ao mundo. Não é. É contabilidade fria de quem entendeu que escassez excessiva destrói o próprio negócio. O aumento de produção em meio ao alarde sobre Ormuz é a confissão silenciosa de que o show é maior do que a substância.

Enquanto isso, o brasileiro continua pagando uma das gasolinas mais caras do mundo em paridade de poder de compra, não por causa de aiatolá nenhum, mas por causa de uma carga tributária que faz o sheik árabe parecer um benfeitor. Cada vez que o preço internacional sobe um dólar, o governo brasileiro arrecada mais sem mexer um músculo, e cada vez que cai, o repasse na bomba demora um trimestre. A geopolítica do petróleo é fascinante, mas o roubo cotidiano do consumidor brasileiro acontece muito antes de o navio chegar a Ormuz. Acontece na Receita, no imposto estadual, na política de preços que serve a interesses políticos travestidos de soberania energética.

A lição que a Opep+ acaba de dar, sem querer, é a mais valiosa que a economia oferece: desconfie sempre da narrativa do pânico, porque alguém está vendendo seguro contra o incêndio que ele mesmo está descrevendo. Se a torneira está abrindo, a casa não está pegando fogo. Está pegando manchete.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.