Existe um câncer que os médicos evitam nomear em frente ao paciente recém-diagnosticado. O pâncreas, quando decide matar, mata rápido e sem negociação: a mediana de sobrevida em estágio metastático girava, há anos, em torno de seis a sete meses com o melhor que a medicina convencional tinha a oferecer, que era basicamente quimioterapia, veneno calibrado, sofrimento administrado. Nenhum congresso aprovou uma lei que resolvesse isso. Nenhum ministério de saúde publicou um edital que mudasse o número. A solução veio de onde sempre vem quando a humanidade realmente resolve um problema: de alguém que apostou dinheiro próprio numa hipótese improvável e ficou de pé até o ensaio clínico provar que estava certo.

A Revolution Medicines divulgou neste domingo os resultados do seu ensaio clínico de fase 3 com o daraxonrasib, um inibidor oral da proteína RAS administrado uma vez ao dia. Os números são o tipo de coisa que faz oncologistas pararem no meio do corredor: sobrevida mediana de 13,2 meses contra 6,7 meses do grupo controle, com um hazard ratio de 0,40 e p menor que 0,0001. Traduzindo para quem não carrega estatística na cabeça: o risco de morte no grupo tratado foi 60% menor. Não é um avanço incremental. É uma ruptura. O mercado entendeu isso antes de qualquer autoridade sanitária se pronunciar, e a ação abriu segunda-feira com alta de 36%, atingindo máximas históricas enquanto analistas de todas as bancas corriam para revisar seus preços-alvo para cima.

A Oppenheimer elevou sua estimativa para US$ 165, a Raymond James foi para US$ 175, a BofA para US$ 170. Isso não é especulação, é o sistema de preços funcionando como deveria: milhares de pessoas com skin in the game, com dinheiro real em risco, processando simultaneamente a mesma informação e chegando a uma conclusão coletiva sobre o valor daquele conhecimento para a humanidade. Nenhum comitê de tecnocratas poderia fazer esse cálculo. Nenhuma agência regulatória poderia agregar esse julgamento distribuído em tempo real. O preço da ação é, em si, informação, e ontem ela disse que a humanidade acabou de ganhar uma ferramenta nova contra um dos seus inimigos mais antigos.

Vale seguir o dinheiro porque o dinheiro conta a história que o press release não conta. A Revolution Medicines existe porque investidores de risco apostaram capital em pesquisa de oncologia molecular quando os resultados eram incertos, os pacientes eram poucos e o fracasso era a hipótese mais provável. Esses investidores não foram motivados por altruísmo, foram motivados por retorno, e é exatamente por isso que funcionou. O altruísmo organizado pelo Estado produz formulário de SUS. O interesse próprio organizado pelo mercado de capitais produz daraxonrasib. A distinção não é moral, é estrutural: o primeiro gasta dinheiro que não é seu em problemas que não escolheu; o segundo aposta o próprio na solução de um problema que o mercado confirmou ser real.

A FDA ainda vai ter que aprovar o medicamento, e aqui começa o capítulo menos heroico da história. A empresa anunciou que vai submeter o pedido de aprovação em breve, o que significa que pacientes que hoje morreriam em seis meses vão esperar, talvez um ano ou mais, enquanto burocratas certificam aquilo que 13,2 meses de dados já certificaram com nível de significância estatística que a maioria das políticas públicas jamais atingiria. O paradoxo é perfeito: o setor mais regulado da economia é justamente aquele onde o custo da burocracia é medido em vida humana. Cada mês de atraso regulatório, nesse caso concreto, tem um preço que pode ser calculado.

O câncer de pâncreas não tinha lobby. Não tinha marcha. Não tinha ministro com pauta. Tinha pesquisadores privados com hipótese, investidores com apetite e um sistema que permite que quem está certo seja recompensado. Isso não é bonito por acidente. É o resultado de uma arquitetura institucional que preserva o incentivo de resolver problemas difíceis. Destrua o incentivo e os problemas difíceis ficam sem solução. É assim que civilizações decaem: não com um decreto, mas com mil regulações que tornam a coragem intelectual e o risco financeiro inviáveis. Ontem, o mercado lembrou que ainda está vivo. E, por extensão, alguns pacientes também.

Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.