A notícia chegou empacotada como costuma chegar, com aquele verniz técnico que faz o leitor desavisado pensar que está diante de ciência pura. A Oppenheimer elevou o preço-alvo das ações da Relay Therapeutics com base em dados preliminares de uma tripla combinação terapêutica, e a cotação reagiu como se a cura tivesse sido descoberta naquela manhã. Quer dizer, basta uma sigla complicada, um gráfico de Kaplan-Meier exibido em conferência e um analista de paletó subindo o número numa planilha para que bilhões em capitalização de mercado mudem de mão. A pergunta que ninguém faz é qual a diferença entre análise farmacológica e leitura de borra de café, quando o método é "três casas elevaram, então deve ser verdade".
Olha, o setor de biotecnologia americano é, talvez, o exemplo mais didático de como o capitalismo de compadrio se traveste de inovação. A Relay, como dezenas de outras, queima caixa há anos sem vender absolutamente nada de relevante, sustentada por rodadas de capital que só fazem sentido num ambiente de juros distorcidos por banco central. Quando o dinheiro é barato porque alguém o imprimiu, qualquer promessa de molécula vira ativo precificado. O preço-alvo da Oppenheimer não é uma medida do valor da empresa, é uma medida da fé do mercado em que o Federal Reserve continuará socorrendo apostas que, em economia sã, teriam quebrado faz tempo.
Me diz uma coisa, quem está realmente comprando essa elevação? Não é o investidor pessoa física, que entra tarde e sai sangrando. São os fundos institucionais que precisam justificar mandato, os bancos que estruturaram secundárias da própria Relay, as casas que têm relacionamento bancário com a empresa e, claro, os executivos que receberam opções a preço de saldo e agora veem a janela de exercício se abrindo. Siga o dinheiro até o fim da fita e o que se vê não é ciência triunfando, é uma engrenagem bem azeitada de incentivos cruzados onde todos os envolvidos ganham na subida e o varejo come o prejuízo da descida.
O que se vê é a manchete de upgrade. O que não se vê é o cemitério de tripla combinações que pareciam promissoras na fase II e morreram na fase III, é o capital humano e financeiro desviado de aplicações produtivas para alimentar essa loteria pseudocientífica, é o paciente real que não verá o medicamento porque a molécula vai falhar, e é o sistema regulatório que cobra centenas de milhões para aprovar qualquer coisa, garantindo que só conglomerados com acesso a Wall Street possam jogar esse jogo. A barreira regulatória que se vende como proteção ao consumidor é, na prática, o muro que protege as gigantes de competição séria.
Há algo de profundamente perverso em tratar saúde humana como ativo de momentum trading. A doença não escolhe ciclo de juros, mas o desenvolvimento da cura sim, porque depende de capital paciente que só existe quando o sistema monetário não está adulterado por planejadores centrais que acham que sabem qual deve ser o preço do dinheiro. O dia em que essa bolha de biotech estourar, e ela vai estourar como todas estouram, vão culpar a ganância dos investidores, a má sorte dos ensaios clínicos, a complexidade da ciência. Não vão culpar o verdadeiro responsável, que é a fábrica de moeda que transformou pesquisa biomédica em cassino com aparência de laboratório.
O upgrade da Oppenheimer pode estar certo no curto prazo. Análises técnicas de tendência funcionam até pararem de funcionar. Mas precificar uma empresa que ainda não provou comercialmente sua tecnologia como se fosse uma farmacêutica madura é o tipo de exuberância irracional que só sobrevive enquanto o crédito artificial sobrevive. Quando a maré baixar, e ela baixa sempre, vamos ver quem estava nadando pelado. Aposto que o paletó da Oppenheimer estará seco, e o do investidor pequeno, encharcado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.