Orbán concedeu a derrota neste domingo com a dignidade possível para quem acaba de perder 83 cadeiras parlamentares em uma única noite. O Fidesz, partido que governou a Hungria por 16 anos consecutivos, foi reduzido a uma bancada de oposição enquanto Peter Magyar e seu Tisza conquistavam a supermaioria que permite, inclusive, alterar a Constituição, aquela mesma Constituição que Orbán reescreveu em 2011 para garantir que ninguém pudesse facilmente tirá-lo do poder. Há uma ironia quase literária nisso: o arquiteto da fortaleza entregou as chaves pela portinha dos fundos.
Nos últimos dezesseis anos, a Hungria tornou-se um manual de como se captura um Estado democrático sem abolir as eleições. Mais de mil juízes substituídos. Um império de mídia construído por aliados de primeira hora. Fundos públicos europeus desviados com tal desfaçatez que a União Europeia bloqueou cerca de 18 bilhões de euros, algo próximo a dez por cento do PIB húngaro, por falta de garantias mínimas de estado de direito. O amigo de infância do premier, que era técnico de gás há duas décadas, tornou-se bilionário durante o governo. Esses fatos não são controversos; são registros públicos. O que surpreende não é que o regime tenha caído, mas que tenha durado tanto tempo com os números tão visíveis.
A pergunta que os analistas entusiasmados estão evitando é simples: a queda de Orbán é uma vitória da liberdade ou apenas uma troca de gerência? Magyar foi fidesz. Formado naquela mesma escola, casado com uma ex-ministra do governo, filho do mesmo sistema que agora promete extirpar. Toda vez que a história registra um "libertador" saído das entranhas do regime anterior, vale checar com atenção o que ele pretende fazer com a supermaioria que acabou de ganhar. Dois terços do Parlamento é exatamente a fatia que Orbán usou para refazer o país à sua imagem. O instrumento é neutro; a intenção, ainda não sabemos.
O contexto econômico explica a ferocidade do resultado. O PIB húngaro cresceu 0,5% nos últimos dois anos, abaixo de qualquer vizinho regional. A inflação, embora em queda, ainda corrói salários reais. O déficit fiscal bate 5,1% do PIB e a dívida pública ultrapassou 75%, com custo de rolagem que consome mais de cinco pontos do produto anualmente. Saúde pública degradada, infraestrutura negligenciada, transporte como símbolo de descaso. As pessoas votam no estômago quando o estômago dói. Participação de 77%, recorde desde o colapso do comunismo soviético, não é entusiasmo com o futuro, é fúria com o presente.
Geopoliticamente, a conta europeia e atlântica chega junto. Orbán apostou em Moscou num momento em que apostar em Moscou significava isolar-se dentro da própria aliança. Bloqueou empréstimos à Ucrânia, manteve dependência energética russa, funcionou como canal de informação conveniente para quem queria fragmentar a coesão ocidental. Magyar prometeu realinhamento com Bruxelas e a OTAN, o que significa, na prática, que os 18 bilhões bloqueados começarão a se mover. Isso vai inflar os números do PIB nos próximos anos, vai parecer competência governamental, e vai consolidar eleitoralmente quem nem começou a governar. O ciclo eleitoral tem sua própria lógica.
O ensinamento permanente aqui não é sobre Orbán especificamente. É sobre a ilusão de que se pode construir uma fortaleza pessoal dentro de um sistema que exige legitimidade periódica. Todo governante que confunde o Estado com sua propriedade eventualmente descobre que o povo, quando suficientemente irritado, é o único acionista que importa, e ele não convoca assembleia com aviso prévio.
Com informações do ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.