O que encerra na Hungria não é exatamente um governo de direita. É um cartório. Viktor Orbán passou dezesseis anos convertendo o aparato do Estado húngaro num sistema de distribuição de favores vestido de identidade nacional, e o erro fatal de todo cartorialismo é o mesmo desde que o mundo é mundo: em algum ponto, os favorecidos acabam, e os desfavorecidos se lembram de que existem urnas.

A vitória de Péter Magyar não precisa ser romantizada para ser compreendida. O partido Tisza conquistou 135 das 199 cadeiras do parlamento com uma afluência de 77,8%, a mais alta da história húngara. Não é o povo em festa pela democracia liberal, pela OTAN ou pelos valores europeus. É o povo exausto. Existe uma diferença enorme entre estas duas coisas, e a imprensa ocidental vai passar os próximos meses confundindo uma com a outra.

Orbán ficou famoso por chamar seu projeto de "democracia iliberal", como se tivesse inventado algo. O que ele inventou, na prática, foi uma variante húngara de um fenômeno muito mais antigo: o governo que começa defendendo a soberania nacional contra burocracias estrangeiras e termina construindo sua própria burocracia interna, igualmente parasitária, só que mais íntima, mais pessoal e infinitamente mais difícil de auditar. Enquanto bloqueava normas de Bruxelas com um discurso soberanista que cativava metade da Europa cansada da União Europeia, Orbán absorvia silenciosamente os fundos europeus e os redistribuía pela rede de aliados e familiares construída ao longo de uma geração no poder. Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro.

O mecanismo é tão antigo quanto o poder. Uma vez que o Estado passa a ser o principal distribuidor de contratos, licenças, concessões e favores, aqueles que estão no poder não governam mais, administram uma fila. E quem controla a fila não pode se dar ao luxo de perder uma eleição, porque perder uma eleição significa não só sair do cargo, mas expor quem estava na fila e o que cada um recebeu. Daí o controle da mídia. Daí a pressão sobre o judiciário. Daí as reformas constitucionais que iam encaixando as peças do quebra-cabeça até que nenhuma delas pudesse se mover sem autorização do centro. Não era autoritarismo ideológico. Era sobrevivência corporativa com bandeira na lapela.

A ironia da situação tem textura grega. Orbán construiu um sistema tão concentrado, tão personalizado em torno de sua figura, que quando a figura começou a mostrar desgaste, não havia nada embaixo para sustentá-lo. Um governo saudável distribui poder, enraíza instituições, cria sucessores. O que foi construído em Budapeste era para durar enquanto ele durasse, e a conta dessa escolha foi apresentada no domingo. A plateia bateu palmas na última cena e foi embora.

Magyar promete aproximação com Bruxelas, lealdade à OTAN e reintegração plena às estruturas europeias. Pode ser que entregue. Pode ser que descubra, como tantos antes dele, que o Estado herdado tem suas próprias regras, seus próprios interesses instalados, seus próprios mecanismos de inércia que nenhum resultado eleitoral desfaz de uma vez. A Hungria de Magyar não vai ser nenhum paraíso de liberdade econômica: vai ser a Hungria de um homem que precisa governar com o aparato que recebeu, dentro de um continente que tem suas próprias exigências e seus próprios cartórios, só que em escala continental. O problema nunca era Orbán. Orbán era um sintoma. O problema era, como sempre é, o tamanho e o alcance daquilo que insistimos em chamar de Estado.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.