Repare na coreografia. O órgão eleitoral peruano sobe ao palco, proclama os dois finalistas da disputa presidencial e, na mesma cerimônia, confessa que o processo teve falhas relevantes o suficiente para precisarem ser corrigidas antes do segundo turno. Quer dizer, o resultado vale, está oficialmente bento, está cravado no mármore institucional, mas o método que produziu esse resultado era furado. É como o cozinheiro que serve o prato, avisa que a carne estava estragada e promete usar carne fresca da próxima vez. Você come ou não come?

A pergunta incômoda, que nenhum analista de televisão peruana vai fazer, é simples. Se houve falhas suficientes para justificar uma promessa pública de correção, por que essas falhas não foram suficientes para invalidar a contagem? Ou o erro é grave e contamina o resultado, ou é leve e não justifica o anúncio solene. As duas coisas ao mesmo tempo só existem na contabilidade criativa do burocrata, que precisa ao mesmo tempo legitimar o que já fez e prometer fazer melhor o que ainda vai fazer. É a velha lógica do funcionário público pego com a mão na lata, que jura que da próxima vez tranca a porta.

Olha, ninguém deveria se surpreender. O monopólio estatal sobre a apuração eleitoral é o mesmo monopólio que opera sob a presunção de que pode errar à vontade e ser auditado por si próprio. Em qualquer outro setor da vida, quando um fornecedor entrega produto defeituoso e diz "fica calmo que no próximo lote a gente acerta", o cliente troca de fornecedor. Em eleição, o cliente é obrigado por lei a continuar comprando do mesmo balcão, com os mesmos funcionários, sob a mesma direção, e ainda tem que aplaudir o esforço. O sistema é blindado contra concorrência justamente porque sabe que não sobreviveria a ela.

E note quem ganha com essa ambiguidade calculada. Os dois nomes proclamados, a herdeira do sobrenome conservador e o representante da esquerda continental, agora têm um superpoder retórico cada um. Quem perder o segundo turno já tem o argumento pronto na manga: a própria autoridade eleitoral admitiu publicamente que o processo era falho. A semente da contestação foi plantada pelo próprio jardineiro. Cui bono? Beneficia quem precisa de pretexto para não aceitar derrota e beneficia também o aparato estatal, que se torna indispensável como árbitro de um jogo cujas regras só ele entende. O eleitor peruano, este sim, sai sem nada além da conta do imposto que financiou a bagunça.

Há uma lição que vale para qualquer país que ainda finja que eleição é um ritual técnico, neutro, asséptico. Não é. É um processo administrado por humanos com incentivos próprios, dentro de uma estrutura que premia a sobrevivência institucional acima da verdade do resultado. Quando o órgão promete consertar depois, está dizendo, sem dizer, que o resultado de agora foi tirado de um chapéu que ele próprio reconhece como furado. E ainda quer que você acredite que o segundo turno será diferente, com os mesmos cozinheiros, na mesma cozinha, usando o mesmo caldeirão.

O Peru, mais uma vez, serve de espelho ao continente. A democracia latino-americana virou esse teatro em que a forma é cultuada e a substância é negociada nos bastidores, em que se proclama vencedor e se confessa erro no mesmo parágrafo do comunicado oficial, em que a autoridade pede confiança justamente no momento em que admite não merecê-la. Confiar em quem pede confiança enquanto confessa falha é o esporte favorito do cidadão domesticado.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.