O contrato de aluguel vence, o inquilino corporativo olha para o andar vazio e faz a conta que todo burocrata de RH evitou durante cinco anos, metro quadrado ocioso é prejuízo certo e baia fria não paga dividendo. A solução encontrada pelos gênios do real estate britânico foi transformar laje comercial em pub, com chopeira, happy hour patrocinado e aquele verniz de convivência forçada que tenta vender como cultura organizacional o que é, no fundo, subsídio disfarçado para tapar o buraco de um modelo imobiliário que quebrou em março de 2020 e ninguém quis velar.
Olha, ninguém precisa ser economista premiado para entender o que aconteceu aqui. Durante décadas, o escritório funcionou porque o custo de estar em casa era alto, internet ruim, computador do trabalho melhor que o pessoal, chefe respirando no cangote como mecanismo de produtividade. A pandemia não criou o home office, ela apenas revelou que o rei dos arranha-céus estava sem roupa há tempos, sustentado por hábito, por contrato de dez anos e por uma classe gerencial que confunde presença física com geração de valor. Quando o teste empírico chegou, o produto saiu igual ou melhor de pijama, e aí o jogo virou.
Me diz uma coisa, se o trabalho remoto fosse mesmo essa tragédia de produtividade que os consultores vendem em palestra paga a sete mil reais a hora, por que diabos seria necessário subornar o funcionário com cerveja artesanal para arrastá-lo de volta? O mercado, quando deixado em paz, resolve isso sozinho pelo preço, quem quer pagar por presença física paga salário maior, quem aceita resultado paga menos e libera a cadeira. Mas o que se vê é outra coisa, é o fundo imobiliário pressionando a empresa locatária, que pressiona o executivo de facilities, que pressiona o RH, que inventa o bar no terceiro andar para justificar o aluguel contratado em 2019 a preços de bolha. Quem paga esse teatro todo? O consumidor final do produto da empresa, claro, que não foi consultado em momento nenhum dessa cadeia.
A trilha do dinheiro aqui é deliciosa de seguir. Grandes fundos imobiliários globais, muitos deles com participação de fundos de pensão estatais, carregam bilhões em laje comercial que perdeu função. Se admitirem a perda, o valor patrimonial despenca, os cotistas correm, o gestor perde bônus. A saída criativa é manter o simulacro, chamar a inquilina de volta com agrado, pintar a baia de colorido, chamar de flexible workspace e rezar para que o próximo ciclo de juros baixos ressuscite o mercado. É o mesmo truque do banco central com ativo podre, empurrar com a barriga até que alguém pague a conta, e esse alguém, invariavelmente, é o pagador de imposto e o poupador honesto que vê sua moeda derretendo.
Há um elemento ainda mais interessante nessa história, o fato de que o home office expôs a principal razão pela qual tanta gente aceitava a tortura da presença obrigatória, a casa no Brasil e na Inglaterra virou impraticável. Imóvel caro porque juros subsidiados inflaram o crédito imobiliário por quinze anos, tributação de IPTU que pune quem trabalha de casa, conta de luz triplicada por política energética verde que só serve para enriquecer lobista de turbina, internet refém de oligopólio regulado. O lar, que deveria ser o refúgio natural do homem produtivo, virou um custo operacional insustentável, e só então a baia corporativa com bar grátis começou a parecer atraente de novo. Não é que o escritório voltou a ser bom, é que o Estado conseguiu destruir a alternativa.
Enquanto os articulistas de jornal econômico celebram o "retorno vibrante da vida corporativa", o fato cru é que assistimos ao colapso lento de um modelo de cidade desenhado no século vinte para operários de terno, agora mantido artificialmente vivo com cerveja subsidiada e ginástica laboral. A economia de mercado, se deixada em paz, já teria convertido metade desses prédios em moradia a preço decente, resolvendo a crise habitacional que os mesmos prefeitos que choram pelo esvaziamento do centro criaram com zoneamento burro. Mas isso exigiria admitir que o planejamento urbano das últimas três décadas foi um fracasso retumbante, e admitir fracasso não consta no currículo de ninguém que recebe salário com dinheiro dos outros. Resta o bar no escritório, esse monumento tragicômico à incapacidade de fazer a conta simples que qualquer dona de casa faria em cinco minutos.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.