O barril caiu na sessão europeia e, como sempre acontece quando o preço se mexe sem pedir licença, meia dúzia de analistas de gravata começou a explicar depois o que não previu antes. A queda tem os suspeitos de praxe: dúvida sobre demanda chinesa, excesso de oferta vazando dos produtores que juraram cortar, sinalização morna de Washington sobre estoques e aquele nervosismo difuso que toma conta do mercado toda vez que o PIB europeu chega anêmico à mesa. Nada disso é novidade. O que é novidade, sempre, é a cara de espanto de quem passou a semana inteira apostando no contrário.
Olha, o petróleo é a commodity mais politizada do planeta, e justamente por isso é a mais instrutiva. Cada centavo no barril carrega, embutido, a expectativa sobre guerra no Oriente Médio, sobre sanção russa que vaza por oleoduto turco, sobre carro elétrico que a União Europeia quer empurrar goela abaixo, sobre o xale verde que governos ocidentais vestiram para parecer virtuosos enquanto continuam queimando diesel até no café da manhã. Quando o preço cai, não é porque o mundo ficou mais limpo, é porque a conta da hipocrisia começou a aparecer.
Quer dizer, o mesmo continente que passou três anos dizendo que ia abandonar combustível fóssil agora torce, em silêncio, para que o barril desabe mesmo, porque sabe que sua indústria não sobrevive a energia cara. A Alemanha que fechou usina nuclear por birra ideológica agora reza para o russo vender gás por baixo do pano. A política energética europeia virou aquela piada antiga do sujeito que serra o galho em que está sentado e ainda chama isso de progresso. E quando o preço se move, é o mercado dizendo, na linguagem mais honesta que existe, que a conta não fecha.
Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta quem ganha com petróleo barato e quem ganha com petróleo caro? Porque a resposta desmonta o teatro inteiro. Produtor estatal árabe adora barril alto, refinaria americana adora barril baixo, trader de Londres adora volatilidade, governo importador adora gasolina em conta para não ser esculachado nas eleições, e o contribuinte, esse eterno financiador involuntário, paga o subsídio quando o preço sobe e paga o imposto quando o preço cai. O jogo está sempre armado para que ele perca nas duas pontas.
O mais bonito da queda de hoje é justamente o que os comentaristas não vão dizer: o preço caiu sem que nenhum banco central precisasse imprimir, sem que nenhum ministro precisasse decretar, sem que nenhuma comissão precisasse votar. Milhões de decisões descentralizadas, em praças espalhadas pelo mundo, processaram informação que nenhum gabinete conseguiria reunir nem em dez anos de reunião. É assim que se descobre o que as coisas valem. Todo o resto é fantasia de planejador que nunca vendeu um litro de nada na vida.
No fim, a lição é sempre a mesma e sempre esquecida. Mercado honesto com moeda honesta produz preço honesto, e preço honesto é a única bússola que impede uma civilização de andar em círculos. O dia em que acreditarmos de novo que um comitê em Frankfurt ou uma planilha em Bruxelas sabe mais do que milhões de pessoas comprando e vendendo ao mesmo tempo, aí sim teremos motivo para nos preocupar. Por enquanto, o barril caiu, e caiu porque tinha que cair. O resto é ruído.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.