Oscar Schmidt foi cremado em São Paulo numa cerimônia restrita, a pedido da família, que agradeceu o carinho recebido e pediu privacidade. O corpo saiu do hospital vestindo a camisa da Seleção, não por marketing de clube, não por homenagem institucional, não por decreto de secretaria de esporte, mas porque o próprio homem pediu assim. Repare na cena, porque ela carrega mais civilização do que noventa por cento das cerimônias oficiais que este país produz num ano inteiro. Um sujeito que passou quatro Olimpíadas carregando a bandeira quis ser enterrado com ela, e fez isso sem precisar de subsídio, sem lei de incentivo, sem cota de visibilidade.

Vale lembrar de onde vem essa figura. Oscar jogou numa época em que o basquete brasileiro não tinha patrocínio bilionário, não tinha comitê olímpico turbinado por dinheiro público, não tinha ministério repartindo verba entre federação e apadrinhado. Ele construiu carreira na Itália, na Espanha, atravessando fronteiras com a própria perna, porque o mercado europeu pagava e reconhecia talento, coisa que burocracia esportiva brasileira nunca soube fazer. O mito dos 81.438 pontos não nasceu de programa federal, nasceu de um cara que acordava cedo, treinava, viajava, ganhava dinheiro vendendo o próprio trabalho e ainda encontrava tempo para vestir a camisa do país de graça quando o país chamava. É a diferença entre quem produz riqueza e quem apenas administra a riqueza dos outros.

E agora a parte que merece atenção. Num país onde qualquer morte relevante vira instantaneamente disputa de narrativa, com políticos correndo para o caixão como moscas em açougue, a família do Oscar fez algo quase revolucionário: pediu silêncio. Não abriu velório público para virar palco de discurso, não transformou o luto em comício, não permitiu que nenhum deputado tirasse selfie ao lado do corpo. Num mundo onde até funeral virou conteúdo, essa família escolheu o que deveria ser o óbvio e virou raridade, a dignidade privada. O Estado não foi chamado para organizar a despedida, porque a família sabe fazer o que família existe para fazer há milênios, enterrar os seus com honra.

Pense na contradição que isso expõe. Enquanto o governo federal gasta rios de dinheiro público tentando fabricar ídolos artificiais, com editais, prêmios, bolsas, programas de incentivo, o verdadeiro ídolo desta geração se despediu sem pedir nada ao poder público. Oscar virou Oscar sem secretário da cultura, sem conselho de ética, sem grupo de trabalho interministerial. Virou Oscar porque o mercado europeu remunerou o talento dele e porque o povo brasileiro reconheceu o trabalho dele. É a prova viva de que grandeza humana não depende de planejamento estatal, ela surge quando se deixa as pessoas trabalharem, competirem, ganharem, perderem e, sobretudo, serem livres para escolher como viver e como morrer.

Há uma lição civilizacional na forma como esse homem se foi. A camisa verde e amarela, nas mãos dele, voltou a significar o que deveria significar sempre, um símbolo de mérito, de trabalho, de afeto espontâneo ao lugar onde se nasceu. Não o trapo ideológico que cada lado tenta sequestrar para a sua trincheira, não o emblema que o governo da vez quer colonizar com a própria propaganda. A camisa do Brasil que saiu do hospital ontem era a camisa daquele país que ainda existe debaixo das camadas de burocracia, imposto e politicagem, o país do sujeito que trabalha e cumpre a palavra. Enterrar Oscar com ela foi devolver à bandeira um pouco da dignidade que o oficialismo insiste em roubar dela todo dia.

Fica a imagem, e fica o contraste. De um lado, um homem que construiu tudo com as próprias pernas, morreu cercado da família e pediu discrição. Do outro lado, a máquina pública que não sabe fazer nada em silêncio, que precisa de holofote para cada migalha, que transforma serviço em propaganda e tributo em favor. Oscar se despediu como viveu, jogando limpo, cumprindo horário, honrando compromisso. Seria bom que o país aprendesse alguma coisa com isso, mas suspeito que daqui a uma semana já estarão aprovando uma lei federal para batizar ginásio nenhum com o nome dele, usando dinheiro que não é deles, para homenagear um homem que nunca precisou de nenhum deles. A grandeza passou por aqui e foi embora sem fazer barulho. Resta saber se alguém estava prestando atenção.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.