A OSI Systems superou as projeções de Wall Street no terceiro trimestre fiscal de 2026 e as ações subiram, como manda o ritual. Receita acima do esperado, lucro acima do esperado, guidance otimista, brinde de champanhe nos terminais Bloomberg. Os analistas chamam de execução brilhante. Eu chamo de capitalismo de compadrio com auditoria semestral. A divisão Security, que vende scanners de raio-x e sistemas de inspeção para aeroportos, portos e fronteiras, é o motor da festa, e ninguém na CNBC pergunta a coisa óbvia: quem é o cliente final desta empresa? A resposta está na cara, mas o pudor jornalístico exige que se finja não ver. O cliente é o Estado, em todas as suas variantes, do TSA americano à alfândega indiana, passando pela ANAC e pela burocracia de aviação de qualquer república com bandeira própria.
Quer dizer, estamos diante de uma empresa que prospera não porque convence o consumidor a preferir seu produto, mas porque convence o legislador a obrigar o consumidor a financiá-lo. É uma diferença que muda tudo. O sapateiro que vende sapato bonito enriquece servindo. O fornecedor de scanner que vende a obrigatoriedade do scanner enriquece subjugando. Chamar as duas coisas pelo mesmo nome, capitalismo, é a maior vitória semântica da indústria do medo nas últimas três décadas. Toda vez que cai um avião, toda vez que um maluco entra com canivete num shopping, toda vez que aparece uma reportagem sobre fronteira porosa, a ação da OSI sobe antes mesmo do enterro das vítimas. É um modelo de negócios em que a tragédia alheia é fluxo de caixa previsível.
Olha, siga o dinheiro e o desenho aparece inteiro. O orçamento de segurança aeroportuária americano não para de crescer desde 2001, e cada novo edital de licitação encontra a mesma meia dúzia de fornecedores credenciados, com a OSI sempre na lista. A barreira de entrada não é tecnológica, é regulatória. Para vender scanner ao governo, você precisa de certificações que custam milhões, lobistas em Washington que custam mais milhões, e relacionamentos de décadas com funcionários que um dia vão sair do governo e ir trabalhar para você. Chama-se porta giratória, e é o lubrificante secreto da indústria de defesa e segurança homeland. O lucro recorde do trimestre não vem de inovação disruptiva. Vem de contrato renovado, de escopo ampliado, de nova exigência regulatória que tornou obrigatório o equipamento que outrora era opcional.
E aí está o ponto que ninguém quer tocar. Cada nova camada de inspeção nos aeroportos, cada novo protocolo de revista, cada nova obrigação tecnológica imposta a portos e terminais foi vendida ao público como proteção, mas funciona como subsídio cruzado a um cartel de fornecedores. O passageiro que tira o sapato, abre o laptop, joga fora a garrafa d'água e estende os braços diante da máquina não está sendo protegido por amor. Está sendo processado por uma esteira industrial cujo lucro vai parar no balanço da OSI e de meia dúzia de concorrentes. A segurança é o pretexto, o contrato é o produto. Quem duvida que pegue o relatório anual da empresa e veja a concentração de receita por segmento governamental. É didático.
Me diz uma coisa, você acha mesmo que uma empresa cujo crescimento depende da expansão permanente do aparato de vigilância estatal vai algum dia fazer lobby para que a vigilância diminua? Vai apoiar reforma que simplifique embarque, que confie mais no passageiro, que reduza a teatralização da segurança? Claro que não. O incentivo está cravado no contrário. Quanto mais paranoia, mais regulação. Quanto mais regulação, mais scanner. Quanto mais scanner, mais receita. Quanto mais receita, mais lobby para mais paranoia. É um ciclo perfeito, e o investidor que comprou OSI há dez anos multiplicou o capital justamente porque entendeu que estava apostando contra a sua própria liberdade de circulação. Não é mérito, é cinismo organizado em formato de S&P 500.
O resultado trimestral, portanto, não é notícia de mercado. É boletim médico de uma sociedade que aceitou trocar dignidade por suposta segurança e nem percebeu que o vendedor da segurança é o mesmo que tem interesse direto em manter a sensação de insegurança. A ação sobe, a manchete celebra, e nas filas dos aeroportos amanhã milhões de pessoas vão tirar o cinto, levantar os braços e passar pela máquina sem entender que estão pagando duas vezes pela própria submissão: uma na passagem, outra no imposto. O mercado livre vende o que o cliente quer. O capitalismo de scanner vende o que o cliente é forçado a comprar. Não confunda os dois, ou a próxima geração vai herdar o aeroporto como prisão e o trimestre recorde como notícia boa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.