O dólar fechou a R$ 4,997 na última sexta-feira, primeira vez abaixo de cinco reais desde março de 2024, e o Ibovespa cravou 198 mil pontos, o décimo sétimo recorde nominal do ano, com alta acumulada de 22,4% em 2026. A manchete dos jornais trata o fenômeno como se fosse conquista da política econômica brasileira, quase um troféu de gestão. Olha, se você acredita nisso, tenho uma ponte no Brooklyn para lhe vender. O que está por trás desse rali não é virtude doméstica, é acidente geopolítico. Petróleo Brent a US$ 102 o barril, WTI a US$ 104, Petrobras e Vale surfando a onda de commodities infladas por um conflito que removeu dez milhões de barris por dia do mercado global. O Brasil não ficou mais competente; ficou mais caro vender o que ele já vende.
A peça central do tabuleiro é o Estreito de Ormuz, por onde escoa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. As negociações entre Washington e Teerã em Islamabad duraram 21 horas e terminaram sem acordo. Os americanos querem vinte anos de suspensão do enriquecimento de urânio; os iranianos oferecem cinco. Trump respondeu ordenando bloqueio naval. O petróleo, naturalmente, subiu mais de 40% desde o início das hostilidades. E o "otimismo" que a imprensa celebra é apenas a expectativa, sem nenhuma garantia concreta, de que uma nova rodada de conversas aconteça ainda esta semana. Ou seja, o mercado está precificando uma esperança, não um fato. É como comprar seguro de incêndio depois que a casa já pegou fogo, apostando que vai chover.
Agora vamos seguir o dinheiro, que é onde a coisa fica interessante. Entraram US$ 29,3 bilhões em investimentos estrangeiros no Brasil nos últimos doze meses. Parece muito, e é. Mas me diz uma coisa: esse dinheiro veio porque o Brasil resolveu seus problemas fiscais, cortou gastos, simplificou a burocracia, reduziu a carga tributária? Nenhum dos itens acima. O capital estrangeiro veio porque o diferencial de juros brasileiro é pornográfico. Com a Selic onde está e o Fed hesitando em subir, o gringo faz carry trade com o real e embolsa a diferença. É dinheiro de oportunidade, não de convicção. É o sujeito que vai ao cassino porque a mesa está pagando bem, não porque acredita na administração do hotel. No instante em que o cenário mudar, seja por um cessar-fogo que derrube o petróleo, seja por um Fed mais agressivo, esse capital sai com a mesma velocidade com que entrou. E quem vai ficar segurando o mico é o investidor local que comprou Ibovespa a 198 mil achando que era fundamento.
O que ninguém menciona, porque estraga a narrativa, é o efeito colateral dessa bonança artificial. Petróleo acima de US$ 100 pressiona a inflação global. O diesel que move a safra brasileira, a logística que leva minério ao porto, o frete que abastece o supermercado, tudo isso fica mais caro. O governo celebra a queda do dólar como se fosse mérito próprio enquanto o custo de vida corrói o poder de compra do cidadão comum. É a velha história: o que se vê é o placar luminoso da bolsa e a cotação favorável do câmbio; o que não se vê é a conta do supermercado, o reajuste do combustível, a inflação importada que chega com atraso cirúrgico, sempre depois da manchete eufórica.
Quer dizer, o cenário atual é uma confluência de fatores que o Brasil não controla, não criou e não pode sustentar. Dependemos de dois governos, o americano e o iraniano, ambos com histórico lamentável de racionalidade, chegarem a um acordo sobre enriquecimento nuclear para que o preço do petróleo não exploda de vez. Dependemos de o capital especulativo continuar achando que vale a pena estacionar dólares aqui em troca de juros altos, juros que, convém lembrar, são altos porque a inflação é alta, que é alta porque o governo gasta demais. É uma roda que gira sobre si mesma, e toda roda que gira sem eixo eventualmente sai do lugar. Quem está celebrando recorde de Ibovespa como se fosse sinal de saúde econômica confunde termômetro com remédio. O mercado sobe, sim. Mas sobe no lombo de uma crise geopolítica, de juros punitivos e de fluxo especulativo. Tire qualquer um desses pilares e veja o que acontece com a festa. Na economia, como na vida, quem depende da sorte alheia não tem do que se gabar.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.