O ouro opera lateralizado nesta semana, ancorado nos arredores de seus picos recentes, enquanto investidores fingem aguardar com serenidade o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping. A narrativa oficial dos terminais de mercado é que o metal "espera definição geopolítica". Mentira útil. O ouro não está esperando coisa nenhuma, ele está fazendo o que sempre fez quando o mundo dos governantes começa a cheirar a podre: ele se torna pesado, silencioso e caro. E o resto do enredo, esse balé entre o americano que ameaça tarifa e o chinês que ameaça embargo de terras raras, é só a trilha sonora.

Enquanto isso, a inflação volta a morder, e o culpado da vez, segundo a imprensa econômica, é o petróleo. Curioso como toda vez que os preços disparam, sempre há um vilão externo conveniente, nunca o sujeito que controla a impressora. Foi o petróleo nos anos setenta, foi a pandemia em vinte e um, foi a guerra na Ucrânia em vinte e dois, agora é o petróleo de novo. Olha, me diz uma coisa: se o barril sobe e o seu salário não acompanha, o problema é do barril ou é do dinheiro que paga o barril? A resposta está escondida à vista de todos, mas reconhecê-la implicaria culpar os bancos centrais, e isso não dá manchete bonita.

Por trás dessa estabilidade aparente do ouro mora uma verdade que os comentaristas de televisão evitam como vampiro evita alho. Bancos centrais ao redor do mundo, especialmente os asiáticos, vêm acumulando o metal em volumes que não se viam desde antes do fim de Bretton Woods. Não é coincidência, é confissão. Quem mais imprime moeda é exatamente quem mais corre para comprar o ativo que não pode ser impresso. Se o sistema fiat fosse tão sólido quanto vendem, os próprios emissores não estariam estocando o concorrente em segredo. Siga o ouro, e você verá para onde o dinheiro de verdade está indo enquanto o cidadão comum continua aplaudindo títulos públicos remunerados em moeda derretida.

O encontro Trump-Xi serve de pretexto para volatilidade controlada, mas o roteiro de fundo é o mesmo desde o fim do padrão-ouro em setenta e um: duas potências brigando para ver quem desvaloriza melhor a própria moeda sem parecer fraco. Tarifa é imposto disfarçado de patriotismo, e quem paga não é o exportador chinês nem o industrial americano, é o consumidor dos dois lados pagando mais caro pelo mesmo produto, com o bônus de financiar burocracias inchadas em Washington e em Pequim. O que se vê é o gesto firme do presidente; o que não se vê é o poder de compra evaporando no bolso da dona de casa em Cleveland e do operário em Shenzhen.

A inflação dita "do petróleo" é sintoma, não causa. Causa é gasto público que não cabe na arrecadação, é dívida rolada com juro artificial, é base monetária que se expande mais rápido que a produção real de bens. Quando a oferta de moeda cresce dez por cento e a economia cresce dois, os outros oito viram preço, ponto. Culpar o barril é como culpar o termômetro pela febre. E enquanto isso, o ouro, esse fóssil bárbaro que tantos prometeram enterrar, continua firme, denso, indiferente. Ele não rende juros porque não precisa. Ele simplesmente está lá quando todo o resto desaparece.

Quem hoje observa o gráfico do metal lateralizado e conclui "está parado" não entendeu absolutamente nada. O ouro não está parado, ele está vigiando. Está esperando o próximo ato de irresponsabilidade fiscal, a próxima rodada de afrouxamento monetário disfarçado de combate à recessão, o próximo discurso em que um banqueiro central jura que a inflação é transitória. E quando esse momento chegar, e ele sempre chega, quem estiver sentado em papel pintado vai entender, tarde demais, por que durante cinco mil anos a humanidade chamou aquele metal amarelo de dinheiro de verdade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.