Olha o roteiro dessa quinta-feira. Trump posta no Truth Social que vai decidir sobre o Irã em duas semanas, o ouro estende os ganhos, e os Treasuries americanos recuperam um pouco do fôlego que vinham perdendo. Quer dizer, basta o homem mais poderoso do planeta postergar uma guerra para que a humanidade inteira corra para o metal que reluz há cinco mil anos. Não é coincidência, é confissão. O ouro só dispara assim quando a confiança no resto do sistema está rangendo nas dobradiças.
Me diz uma coisa: por que diabos um pedaço de metal amarelo, que não rende juros, não paga dividendos, não produz absolutamente nada além de existir, vale hoje mais do que valia há dois anos, há cinco anos, há vinte anos? A resposta incomoda, mas é simples. Porque do outro lado da balança está uma moeda fiduciária administrada por um banco central que imprime sem cerimônia, um Tesouro que rola dívida sobre dívida, e uma classe política que descobriu há décadas que é mais fácil financiar bombardeio com inflação do que com imposto explícito. O cidadão até reclama do preço do pão, mas raramente conecta o pão caro à impressora ligada em Washington.
E aí entra a beleza macabra da geopolítica financiada por papel. Cada vez que um presidente americano cogita atacar um país do Oriente Médio, o mercado de bonds estremece, o petróleo balança, o ouro sobe. Não porque os investidores sejam pacifistas de coração, mas porque eles sabem aritmética. Guerra custa caro. Caro de verdade. E o tesouro que já está rolando trilhões em juros não tem espaço para mais uma aventura sem ligar a impressora um pouquinho mais alto. O recuo nos yields de hoje, depois do adiamento, é o suspiro de alívio de quem segura papel americano e teme que ele derreta na próxima coletiva.
Note a perversidade do arranjo. Quem ganha quando o ouro sobe? Geralmente quem já tem ouro, ou seja, bancos centrais asiáticos que vêm comprando lingotes como se não houvesse amanhã, fundos soberanos que entenderam o jogo há tempos, e uma minoria de investidores informados. Quem perde? O assalariado que guarda em poupança, o aposentado que confiou no título de longo prazo, o pequeno empresário que vê o custo do crédito subir porque o prêmio de risco aumentou. A política monetária frouxa não distribui pobreza democraticamente; ela enriquece quem está perto da fonte e empobrece quem está na ponta da mangueira. Sempre foi assim, em Roma, em Weimar, em Buenos Aires, em Washington.
E o Brasil, sentado na arquibancada? Aplaude distraído enquanto o dólar oscila com cada tweet de Trump, sem perceber que o real é apenas um espectador do mesmo espetáculo monetário, só que com bilhete de pior qualidade. Nosso Banco Central faz malabarismo com a Selic, o Tesouro Nacional repete o mantra do arcabouço fiscal, e a inflação dos serviços corrói o salário enquanto a narrativa oficial garante que está tudo sob controle. Sob controle de quem, exatamente, é a pergunta que ninguém quer fazer no horário nobre.
O ouro a oito mil e tantos dólares a onça não é euforia, é termômetro. Está dizendo, em letras douradas, que cinco décadas de moeda sem lastro estão chegando ao limite da credibilidade. Pode demorar mais um ano, pode demorar mais uma década, mas a aritmética não negocia. Quando o dia da conta chegar, vai haver muita gente perguntando onde estava o sinal de alerta. Estava ali, brilhando, o tempo todo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.